Constitucionalmente garantido, o direito de ir e vir não cabe tão bem na rotina de Luana Montalvão. Cadeirante aos 23 anos, ela não sabe o que é chegar ou sair de casa sozinha e sem se preocupar se os buracos na rua a impedirão de transitar com a cadeira de rodas, que, inclusive, já está com o aro torto.
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Alex Mita |
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Ao cair da noite, os buracos ficam quase imperceptíveis à cadeirante Luana Montalvão, moradora da quadra 5 da rua Victor Juarez |
Há quase um ano morando na quadra 5 da rua Victor Daniel Juarez, no Núcleo Leão 13, na região noroeste de Bauru, ela é apenas mais uma entre as centenas de pessoas do bairro que esperam há anos pela pavimentação e por uma condição mais digna de moradia.
A rua de Luana também está entre outras 9 quadras que precisam de asfalto para contemplar pedidos de moradores com algum tipo de deficiência física na cidade, conforme o JC apurou junto à Secretaria Municipal de Obras.
Drama
Paraplégica desde os 15 anos, após quebrar a coluna durante uma brincadeira com uma bicicleta, que perdeu o freio em uma ladeira, Luana conseguiu superar seus traumas quando saiu da cama e se acostumou com a nova forma de locomoção.
Há cerca de um ano, porém, dificuldades fizeram com que a família se mudasse de uma casa com rua asfaltada para o Núcleo Leão 13.
“Com o passar do tempo e as chuvas a rua foi piorando. E o asfalto prometido não veio. A prefeitura até joga terra às vezes, mas faz tempo que ninguém aparece e estamos nessa situação”, conta a jovem.
Se com a luz do dia a dificuldade de desviar das crateras e andar contra os entulhos já é grande, o problema da cadeirante aumenta ainda mais com o cair da noite.
“Não dá para enxergar, essa rua vira uma armadilha, ainda mais para mim. Por isso, quase não saio de casa, a não ser para trabalhar e ir à igreja alguns dias da semana”, lamenta a jovem, dizendo que a dependência da família para locomoção é o seu maior drama.
E de fato, as condições da via atrapalham completamente a rotina de Luana, que depende da presença da mãe, dona Maria Conceição Roque, de 42 anos, em casa ou de irmãos e vizinhos para poder ajudá-la a percorrer o trajeto de duas quadras até a rua Dezenove - via perpendicular à Victor Daniel Juarez, a única asfaltada nas imediações -, até o ponto de parada do ônibus ou van adaptados da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano (Emdurb).
Além das imperfeições no solo, causadas pelas erosões e por entulhos jogados por moradores em uma tentativa de amenizar o problema, o fato de as quadras 4 e 5 serem subida tornam o trajeto ainda mais longo e sofrido.
“É tanto buraco que o aro da minha cadeira de rodas está todo torto. Logo, teremos que trocar, porque está fincando mais difícil ainda de andar”, acrescenta a jovem.
E a solução?
O município previa entrega de pavimentação e implantação de sistemas de galerias, neste ano, para essas outras 700 quadras em um projeto que integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC Pavimentação), que só no Santa Cândida teria investimento aproximado de R$ 4 milhões, voltados para o asfalto e drenagem.
O secretário municipal de Obras, Sidnei Rodrigues, contudo, afirma que o problema ainda deve se estender por alguns meses. “Sabemos do problema deste bairro. Essa rua fica na região do Santa Cândida, que será contemplado pelo PAC. Mas, na semana passada, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) suspendeu o programa, por um problema no edital. Infelizmente, vamos demorar um pouco mais para resolver essa situação”, pontua Sidnei.
Vale lembrar que problema envolvendo a suspensão do PAC foi alvo de reportagem do JC no dia 15 de abril.
Ele frisa, no entanto, que o setor jurídico da prefeitura tem trabalhado na tentativa de liberar o programa e iniciar as obras o mais breve possível.
“A Secretaria acompanha a situação desses moradores. As quadras de deficientes físicos entram como nossa prioridade”, ressalta o secretário.
Ao final da entrevista, Sidnei prometeu enviar uma equipe da Obras no local, ainda nesta semana, para amenizar o problema das erosões aterrando as quadras em questão.
