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Igreja e sociedade: Eu vim para servir

Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 3 min

No Brasil, o itinerário quaresmal da Igreja Católica é acompanhado por um assunto que favorece a reflexão e a conversão, proposto pela Campanha da Fraternidade que neste ano traz como tema "Igreja e Sociedade" e lema: "eu vim para servir" (Mc 10,45). O objetivo é apresentar a Igreja como continuadora da missão de Cristo, que veio ao mundo para servir. A Igreja, por meio de suas pastorais, movimentos, associações e inúmeros projetos sociais tem sido uma importante parceira da sociedade, buscando sempre a promoção da vida com dignidade e qualidade. São inúmeras ações feitas por amor a Cristo e com amor, em vista do bem comum. O papel dos cristãos é servir, é dar a sua colaboração, grande ou pequena, para o bem dos outros. O serviço generoso gera contentamento. Cristo afirma: "se vocês praticarem isso serão felizes" (Jo 13,17). Portanto, o serviço é também um caminho de realização pessoal e um meio eficaz de colaborar para a construção de uma sociedade melhor, sem substituir (é claro) as obrigações do Estado e da Política.
Todo serviço realizado voluntariamente como expressão de fé, é um testemunho. Por essa razão, apresentamos a Pastoral da Criança como um exemplo dentre tantos outros presentes na ação evangelizadora e missionária da Igreja. A Pastoral da Criança oferece um jeito de ser Igreja com acento na dimensão samaritana e profética, que se atua na solidariedade concreta com os vulneráveis. Aqui se dá a conexão entre ação e evangelização, contudo não aquela de massa, mas do contato interpessoal, criador de vínculo e cuidado para com a vida.
A Pastoral da Criança é expressão da Igreja de Cristo. A proximidade com o necessitado faz com que este sinta a proximidade de Deus. Deus fala por meio de relações personalizadas, marcadas pelo afeto, cuidado e responsabilidade. Significativo é o texto do Profeta Ezequiel (47,1-12). A interpretação livre do texto permite aplicá-lo, de certo modo, à Pastoral da Criança. Assim sendo, não nos parece exagerado estabelecer uma aproximação da Pastoral com a água que sai do Templo e que, durante o percurso, transforma-se em grande rio para finalmente desembocar no mar. O texto diz que aquela água, que tem poder de sanar todas as outras águas, inclusive o mar, por onde passa produz fruto e vida: "pois onde quer que essa água chegue, ela levará vida, de modo que haverá vida em todo o lugar que a torrente atingir" (Ez 47, 9). Haverá abundância de árvores e frutos que servirão de alimento e remédio. Tudo isso porque "a água provém do Santuário" (Ez 47,12).

A Pastoral da Criança é expressão da Igreja em movimento que objetiva contribuir para preservar a vida e impedir as mortes precoces e evitáveis. Ela é um rio de águas profundas e curativas, cuja força altera o leito e o desvia para os lugares abandonados, os bolsões de pobreza, o mundo dos vulneráveis. O importante é chegar e passar entre eles, fazer o bem ainda que a intervenção e ações não representem garantia de êxito total (não há pretensão de sê-lo), pois nem sempre é possível preservar e conservar toda vida a nós confiada, porém reduzir o número de mortes é um fato comprovado. Manter o leito de um rio fecundo (Igreja) de modo linear, sem desvios, significa subtrair-se da missão e enterrar um imenso potencial de vida. Tal omissão será um dia motivo de cobrança (cf. Mt 25, 14-30).

Por fim, a Pastoral, chega até o "mar", isto é, atinge também estruturas e cultura, com forte capacidade de penetração, oferecendo uma contribuição para que estas sejam sanadas, melhoradas e transformadas. Nesse sentido ela conscientiza para a cultura do cuidado para com a vida e, simultaneamente, potencializa a cultura da vida. Cabe recordar que a injustiça social e a corrupção praticamente endêmica (em nível macro ou micro), causam indignação ética, sobretudo por produzirem mortes indiretas naqueles (as) que mais necessitam de um Estado de bem-estar social.

O autor é pároco da Paróquia de São Cristóvão
e diretor da Faculdade João Paulo II

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