Nos últimos tempos, a violência tem sido uma rotina. Seja com animais, com crianças ou com qualquer membro da sociedade. As discussões não buscam mais a razão. As pessoas não se preocupam em argumentar. Debater opiniões é perder tempo. Com isso as pessoas estão mais intolerantes e reagindo com violência também. O problema é que nem sempre essa reação é direcionada aos opressores.
Sou professora e o que me traz a esse debate é o caso do professor que foi espancado na quadra de uma escola na periferia de Bauru. Bem, não temos como saber o que realmente aconteceu durante a aula do professor, essa apuração e providências cabem à escola. A direção, junto aos professores, alunos e conselho de escola, é responsável por investigar e apurar os fatos. Mas como tudo aconteceu agora é também caso de polícia. De qualquer forma, nenhum tipo de violência se justifica em nenhuma situação. Nem com o cachorro que foi esfaqueado, nem com a pessoa que matou o cachorro, nem com o aluno, nem com o professor e nem com esse pai de aluno.
Hoje na nossa sociedade sofremos violências físicas (como a do professor); violência verbal, quando somos injustiçados diante de um fato; violência administrativa quando os fatos não são devidamente investigados ou quando nos é sugerido para ficarmos calados diante de uma agressão. O Estado (administração pública) pratica violência todos os dias quando falta médico nos postos, quando falta professor nas escolas, quando falta escola nos bairros, quando sua rua não tem saneamento básico, quando falta condições de trabalho para que as pessoas possam executar suas funções. O Estado é o maior violentador da nossa sociedade! É preciso direcionar os argumentos na hora de cobrar justiça. Agredir professor, médico, policial, enfermeira, secretária... não vai fazer com que o Estado deixe de ser violento.
Hoje, da forma que a escola é tratada pelo poder público, essa realidade tende a ficar cada vez mais insustentável. É uma tragédia anunciada. As escolas precisam promover festinhas para arrecadar fundos para manutenção dos prédios. Até repor lâmpadas para as salas de aula, já vi diretoras tendo que "rebolar" para garantir que as crianças tivessem condições de ter aula. Contratação de mão de obra para pequenos reparos como solda, torneira que vaza, vaso sanitário entupido. Compra de produtos de limpeza. Até o alho para o tempero da merenda algumas escolas tiveram que dar conta. Outro dia tivemos um vazamento de gás no fogão da cozinha. A prefeitura não se responsabilizou, a APM quase sem recursos, teve que se virar. Agora eu me pergunto: há violência mais cruel do que essa?
Nós, professores, antes de sermos professores também somos cidadãos, estamos no mesmo barco e também sofremos essa opressão! Esse pai que agrediu o professor, ao agir dessa forma perdeu toda a sua razão e perdeu a oportunidade de dialogar e melhorar a escola que atende seu filho. Com essa atitude todos nós saímos perdendo. A escola é do bairro, é do cidadão que paga impostos. Participe do conselho de escola. Participar da APM não é só contribuir com aquele dinheirinho (dinheirinho que é muito bem-vindo quando a verba não chega, mas quem é o órgão mantenedor da escola?). Todos nós temos responsabilidades, direitos e deveres com a qualidade dessa escola. Não pense que os professores ficam satisfeitos com essa situação, pois também sofremos muito por não conseguir atingir os objetivos planejados, por não conseguir que a escola cumpra seu papel dentro da sociedade.
A autora é professora em Bauru