Regional

Hidrovia parada gera R$ 200 mi de prejuízos

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 4 min

José Reynaldo da Fonseca/Wikimedia Commons

Trecho do rio Tietê em Barra Bonita.

Sem perspectiva para a volta da navegação neste primeiro semestre na hidrovia Tietê-Paraná, sindicatos e empresas ligadas ao setor já contabilizam que o prejuízo chega a R$ 200 milhões de perdas direta e indireta e pelo menos 1.000 demissões desde a suspensão da navegação, a partir de maio do ano passado. Esses números foram divulgados ontem, na Barra Bonita (68 quilômetros de Bauru), em um encontro com representantes de vários segmentos a bordo do navio São Marino. 

 

A reunião fez parte da mobilização do setor para buscar convencer as autoridades federais de rever a estratégia do governo de priorizar a geração de energia em detrimento da navegação.

 

A Tietê-Paraná é uma rota estratégica para grandes indústrias que exportam farelo de soja, celulose e madeira do centro oeste  para o porto de Santos, o maior da América Latina.

 

A suspensão no transporte de carga de longo percurso ocorreu porque as usinas de Três Irmãos e Ilha Solteira passaram a gerar mais energia, reduzindo o nível de seus lagos, que são interligado com o Canal de Pereira Barreto. 

 

Na região de Bauru, a medida provocou de imediato a paralisação dos entrepostos de Pederneiras e Anhembi. â??Praticamente está tudo parado, a espera de uma solução que até o momento não veio. A solução existe: é política e não mais técnicaâ?, afirma José Gheller engenheiro responsável da Transporte Navegação e Portos Modais (TNPM), a maior empresa que opera no rio com 14 comboios. Só em Pederneiras foram 98 demissões. No momento o entreposto só tem quatro funcionários e ontem as instalações estavam fechadas. A Caramuru com unidade em Pederneiras e em Anhembi também demitiu cerca de 150 pessoas entre pessoal contratado e terceirado desde a crise do ano passado, informa o supervisor da empresa Wakys Augusto de Oliveira.

 

O secretário de Desenvolvimento Econômico e vice-prefeito de Pederneiras, Juarez Solana, afirma que o impacto mais forte nas finanças do município vem a partir do ano que vem. â??Por baixo o município deve perder de R$ 15 a R$ 20 milhões de repasses de Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), sem contabilizar o impacto do desemprego com as demissões no setorâ?, conta Solana.

 

O JC visitou ontem o Terminal Intermodal em Pederneiras, onde faz o transbordo para vagões ferroviários da MRS Logística, cujo o terminal estava fechado. A hidrovia faz em Pederneiras a interligação com a ferrovia para chegar ao porto de Santos. 

 

O evento foi promovido pela Federação Nacional das Empresas de Navegação Aquaviária (Fenavega) e apoio do Sindicato dos Armadores de Navegação Fluvial do Estado de São Paulo (Sindasp).

 

Remoção de pedras 

 

O â??gargaloâ? na hidrovia fica na região de Nova Avanhadava, onde aguarda as obras de derrocamento (remoção de pedras) para aumentar a profundidade em mais dois metros. O investimento está estimado em R$ 314 milhões e está sendo licitado. â??Se a obra de derrocamento estivesse concluída, as barcaças não conseguiram navegar atualmente, o nível do rio está baixo. A cota mínima é de 322.40 m.s.n.m em relação ao nível do mar, mas está em 319,47â?, contou o ex-presidente do Sindasp, Luiz Fernando Horta Siqueira.

 

Fenavega diz que falta gestão

 

O presidente da Fenavega, Raimundo de Holanda Cavalcante, critica os governos federal e estadual por investirem â??muitoâ? na hidrovia mas faltou gestão ao manter a navegação no trecho. â??A estiagem era previsível, faltou planejamento para que não priorizasse a produção de energia e parasse a navegaçãoâ?, declarou. Uma questão levantada na reunião foi o desrespeito à lei federal que estabelece o uso múltiplo das águas.

 

Para o consultor do Departamento Hidroviário Luiz Roberto Corrêa, a Agência Nacional de Água (ANA) deveria ter se preocupado também com a navegação. â??Faltou realmente gestão, porque no ano passado o (governo federal) ao temer um colapso no sistema elétrico priorizou a geração de energia, o que dificultou aumentar a vazão do Tietêâ?, declarou.

 

Os empresários estimam que entre investimentos públicos e privados em terminais, novas embarcações e fábricas foram despendidos em torno de R$ 6 bilhões.

 

Corrêa ressalta que â??tem que torcer para choverâ?. â??Se o sistema elétrico não mudar a sua forma de geração de energia, somente se chover muito para encher os reservatóriosâ?, declarou.

 

Para o prefeito de Araçatuba, Cido Sério (PT), existe realmente uma dificuldade de convencer as autoridades de que é necessário equilíbrio entre os usuários dos reservatórios, mas teria faltado regulação. O setor é fiscalizado pela Agência Nacional de Água (ANA) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O prefeito admitiu que Araçatuba é o município que mais sente os efeitos da crise, com a paralisação de entrepostos.

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