Entre o amplo banquete de crendices populares ? degustado principalmente pelo pessoal mais antigo -, havia a lenda de que, se o chinelo ficasse virado para baixo, o pai ou a mãe da pessoa morreria. A mesma sentença de morte valia para sapato, tênis, sandália e até pantufas. Eu nunca acreditei nisso. Se eu deixava meus calçados de "barriga para cima"? Nunquinha. De jeito nenhum. Que bom seria se realmente tivéssemos o poder de salvar nossos pais. Que bom seria se realmente tivéssemos o dom de tirá-los da rota de colisão de qualquer percalço malicioso. Garanto que todo e qualquer filho não hesitaria em ser o substituto do pai como protagonista de um dia ruim, de uma memória desagradável, de uma tragédia.
Tragédia. Não a grega. A nossa. A tragédia do dia a dia mesmo. Não tem jeito. É sabido que o ciclo natural da vida determina que os filhos enterrem seus pais (é só questionar a dimensão da dor para uma mãe que perdeu seu filho). Mas que babaquice de ciclo de vida é este que termina com o fim da vida de alguém? E ainda mais com o fim da vida de alguém que nos deu a vida e passou a vida para nos garantir uma vida melhor? É babaca. É besta.
A morte de um pai ou mãe é algo genuinamente bestial. Sem outra expressão para tentar entender esse fenômeno. Tínhamos combinado um jantar no final de semana; foi interrompido por aquele vaso que entupiu no encéfalo. Iriamos ver a continuação daquele filme que ele gostava tanto; foi desmarcado por um carro que tentava fazer uma ultrapassagem proibida na rodovia. Iríamos dar de presente de aniversário para ele aquele notebook novo; a compra precisou ser cancelada por um dia de lazer na água que acabou de forma desgraçada. "Morte besta", disparou alguém, no velório deste domingo. De todas as incertezas do mundo que pairavam naquele momento de luto, ele não poderia estar mais certo. A dor passa e, inevitavelmente, a vida continua. Parece inacreditável no momento de desespero, de perda. Mas um dia esse sentimento de angústia dá lugar a novidades. Novas alegrias virão e novas tristezas também. E nunca perderemos aquela lembrança saudável dos nossos pais.
Mas, naquele café de fim de tarde ou naquela cena paterna mostrada em um filme, um questionamento emanará na nossa cabeça: "por que eles tiveram que partir?". Invejo os religiosos que conseguem responder esta pergunta sobre os pilares de suas crenças. Eu ainda não consegui atingir tal grau de espiritualidade. E acho que nunca terei uma epifania que me faça entender. Os pais não deveriam morrer. Os meus e os de ninguém. "Morte besta", agora sou eu que esbravejo. Tenho certeza que muito desse tal de destino ? que se apresenta, por vezes, com o nome de fatalidade - será explicado mais para frente. Enquanto não entendemos os sem-número de porquês, o que nos resta é seguir desvirando os chinelos. Desvirando, calçando e caminhando em frente. O que nos resta é caminhar a vida que nossos pais deixaram. Sem eles, vida besta.
O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia