A análise do cenário político-econômico das últimas semanas indica que as autoridades fazendárias estão fazendo um esforço hercúleo visando conseguir que o Congresso Nacional e o Senado aprovem medidas, objetivando o rápido saneamento das contas públicas. Com o já conhecido fisiologismo político, exigindo reciprocidade para aprovar o Plano de Saneamento das Finanças Públicas, as dificuldades para efetivá-lo vão acentuando-se. Nada pior para o momento atual. E com isso, a estabilidade financeira da Nação vai sendo tratada, exatamente como os remendos nos buracos das ruas, que infernizam o dia-a-dia da população.
Nesse aspecto, John Micklethwait e Adrian Wooldrige, autores do recém-lançado livro "A Quarta Revolução- A Corrida Global para Reinventar o Estado", Edit. Portfólio-Penguim, afirmam: "... Os políticos hoje são como arquitetos que discutem as condições dos cômodos numa casa em ruínas, apressando-se em consertar uma janela aqui outra acolá, sem jamais considerar as condições da edificação".
Poucos indicadores econômicos apontam para alguma esperança de melhoria num futuro próximo, além do recorrente erro de debitar a conta do ajuste fiscal ao já sobrecarregado contribuinte.Como demonstrado exaustivamente pelos registros da História Econômica do Brasil, isso ocorre pelo fato de que a despesa pública doméstica é incomprimível, fato agravado pela Constituição de 1988, também chamada de "Cidadã" (?). A análise dos últimos dados orçamentários do Tesouro Nacional (10/5/15) demonstra que na rubrica Despesas Obrigatórias só com a Previdência Social foram gastos, no primeiro trimestre de 2015, R$ 104,5 bilhões (aumento de 5,1% em relação a igual período de 2014), e com a folha de pagamento do Setor Público R$ 55,6 bilhões (com decréscimo de somente 1,9% em relação a igual período em 2014). A única opção viável para sair dessa armadilha é mudar, via Congresso e Senado, essa inflexibilidade orçamentária, que segundo especialistas "engessa" aproximadamente 94% do Orçamento Público.
Os dispêndios salariais estatais deveriam ser o primeiro item a ser racionalizado, exatamente como fizeram Portugal e Espanha em 2008, o que propiciou o rápido reequilíbrio das finanças públicas. O inchaço permanente dos quadros governamentais é algo não-administrável para um país que não cresce, trabalha e produz pouco, além de tributar e gastar muito e mal.
Portanto, resta aos contribuintes e empresários sensatos aguardar a melhoria do cenário, freando os investimentos produtivos, mantendo a folha de pagamento enxuta, estoques adequados, eliminando dívidas desnecessárias e aplicando os excedentes de caixa no mercado financeiro, já que a Selic ruma seguramente para 14% ou 15% a.a, por enquanto. A estratégia defensiva é sempre a mesma, já que no Brasil os desatinos políticos e econômicos são tão previsíveis quanto o nascer e o pôr-do-sol. Vivemos um permanente "apagão" de inteligência.
O autor é economista