O povo Tapirapé foi descobrindo, aos poucos, como eliminar as substâncias tóxicas da mandioca de modo a ingeri-la como alimento seguro. Também selecionaram as manivas e plantaram as que produziam raízes mais saborosas. Com o objetivo de conservá-las por mais tempo, vários povos indígenas passaram a ralá-las e, para desidratá-las, inventaram o tipiti. A secagem subseqüente se dava tanto com a exposição ao sol como ao fogo. Assim aprendemos a ingerir a saborosa farinha de mandioca sem a qual não se pode degustar uma boa moqueca ou feijoada.
Também selecionaram certos tipos de gramínea chegando à descoberta do milho como rica fonte de alimento. Não sem razão alguns povos se diziam Hombres de Mayz. No México, algumas espécies da família dos Amaranthus foram também "domesticadas" cujos grãos passaram a constituir fonte importante da alimentação de Aztecas e Toltecas. Durante séculos, a Quinoa fez e faz parte da alimentação de povos da América do Sul. Quando os espanhóis aportaram à América, perceberam que os índios locais cultivaram uma espécie de leguminosa de sementes tóxicas, mas cujo bulbo, semelhante à nossa cebola, fazia parte da alimentação dos habitantes locais. Como era doce, os espanhóis apelidaram o Jacatupé como maçã dos trópicos.
Os povos que habitavam (alguns ainda habitam) a região hoje correspondente ao Peru, cultivaram mais de 3 mil espécies de um tubérculo por nós conhecidos como batatas. Alguns deles fazem parte de nossa culinária como a batata doce e a batata chamada inglesa que, na verdade, é peruana. Uma praga comprometeu uma plantação de batata: a Irlanda teria desaparecido como povo, não fosse as batatas vindas do Peru.
Ao abordar o tema das patentes, convém aprender um pouco das origens de nossa alimentação, seu cultivo, sua rica culinária, suas características nutricionais. Certos sistemas econômicos abstraem esses aspectos para transformar os alimentos em meras mercadorias que geram lucros para poucos. A monocultura voltada à exportação, além de agredir a natureza, tem servido ao monopólio dos alimentos cujos preços são cotados nas bolsas de valores, de modo a dificultar o acesso, levar à padronização e favorecer o desperdício. Segundo a FAO, anualmente 1,3 bilhão de toneladas de comida são desperdiçadas em todo o mundo, correspondente a 33% de todo alimento produzido no mundo, enquanto quase 1 bilhão de pessoas carecem do mínimo necessário.
A monocultura exportadora, principalmente a voltada à produção de grãos para ração animal, o uso de agrotóxicos, os paradigmas tecnológicos, o abastecimento de alimentos nas grandes cadeias de supermercados, tem comprometido seriamente a soberania alimentar. Nessa Semana dos Alimentos Orgânicos, urge fortalecer as feiras livres e a agroecologia.
A autora é professora aposentada da Unesp