Ciências

Um pupilo da professora Maria Luzia

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

No século passado, por 15 anos, mais de 10 físicos húngaros foram reconhecidos e receberam o Prêmio Nobel de Física. Até que um dia alguém ficou intrigado e pesquisou o que tinham em comum: estudaram na mesma escola e tiveram aulas de física com o mesmo professor!

Tudo que direi a seguir, tem caráter generalizado, mas as exceções existem. Se a sociedade soubesse (e ela não sabe e sequer tem a menor ideia) o valor que um professor tem na vida, talvez os pais das crianças e adolescentes teriam uma de duas atitudes: não deixaria o filho ser aluno de ninguém ou então pegaria em bandeiras para fazer com que este profissional fosse um dos mais bem remunerados do mercado de trabalho!

Um professor determina vocações, aptidões, caráter, exemplo, destino e muito mais, delineia o futuro de cada aluno: para o bem ou para o mal! Professores mal preparados e mal amparados, sem uma formação adequada do ponto de vista humanístico e técnico não tem como influenciar beneficamente o destino dos filhos da sociedade.

Tudo passa pelo professor! E passa muito mais pelos professores do que pelos pais! Os pais estão trabalhando, viajando, estudando e quem cuida são outras pessoas, especialmente os professores. Os filhos dificilmente são, na real, prioridade dos pais quanto a horas de companhia, qualidade da relação, exemplo de amor e tolerância. A preocupação é com o próprio futuro pessoal e profissional!

Na formação é muito sério o ensino de como encarar a vida. Quem mais metodicamente tem tempo para ensinar e ser exemplo para seu filho é o professor! Os pais não tem mais tempo, paciência e formação: o professor tem tudo para fazer a cabeça de seu filho! Professores não repassam apenas conhecimento, mas posturas, exemplos e princípios de vida! Eles não concorrem com a tv, computador e celular como ocorre em sua casa com você!

MARIA LUZIA

Era linda e charmosa! Eu menino, nem usava ainda os hormônios recreacionais. Mandava abrir o Atlas Geográfico e começávamos a busca por cidades, estados e países. Picos, vales e rios eram caçados. Limites, vizinhanças e referências no globo eram checados. Nem se tinha Google Maps, menos ainda, Gps. Havia vida na terra sem internet, muito embora não entendo como isto pôde existir, mas que um dia vivemos sem ela, aconteceu!

A fala mansa e compreensão permitiam os erros e desenganos. Não tinha como, voltávamos para casa orgulhosos, carregando de baixo do braço aquele livro enorme e imponente conhecido como Atlas Geográfico. Em casa, nas brincadeiras e jogos explorávamos o tema para impressionar os colegas.

Um dia o destino pregou-me uma peça! Em reunião literária quem estava naquela mesa? O presidente disse: alguém quer fazer uso da palavra? No impulso me peguei dizendo: gostaria muito de dizer que foi graças a esta pessoa, a professora Luiza, que hoje conheço o mundo! O silêncio cortou o ambiente cheio de gente! Fui em frente: nas minhas primeiras séries ela foi a professora de geografia e isto me impulsionou muito na vida até hoje. Se alguém duvidar, eu desafio a perguntar agora o que quiser sobre os continentes, países, estados, cidades e outras coisas no conjunto do conhecimento geográfico básico: eu respondo todas as perguntas!

Ninguém fez qualquer pergunta: ufa! Depois me chamam de louco e não sei por quê! Mas acho que mandaria bem se alguém questionasse alguma coisa: adoro saber as coisas de meu mundo. No final, um abraço caloroso e em lágrimas choramos de alegria! Merecidamente, diga-se de passagem.

Selo, carta, cartão e convite são coisas de um mundo de papel, que por mais incrível, ainda resistem ao tempo! Eis que recebi um envelope selado com remetente e escrito a mão! No lindo convite: seria uma alegria que viesse ao lançamento do meu novo livro “Os filhos de Moisés” premiado pela Academia Araçatubense de Letras.

Luzia não tem qualquer relação de parentesco ou pessoas próximas. Mudou a minha vida e de centenas de outros meninos e meninas. É mais que ser parente, é ser cúmplice de vida, parceiro do sucesso e credor de gratidão imensa que nem cabe em um só coração. Do alto de seus 84 anos, sou apenas mais um dos seus pupilos de seu trabalho como gente de verdade: isto é “ser” professor! Grato.


Observatório

Imperdível! - Meses atrás, em um dos programas da Globo, o jornalista Alexandre Garcia fez uma declaração em defesa dos professores que emociona a todos que a escuta por inteiro. Procure no YouTube.

Professores - Um país sério tem nos professores seus ídolos e exemplos a serem seguidos pelos mais jovens. Só teremos pessoas não corruptas se aprenderem isto na escola, seremos coerentes e honestos se a escola mostrar isso e oferecer exemplos nas relações entre professores, diretores e funcionários das escolas e destas pessoas com seus alunos e pais. 

Nunca! Sem professores de qualidade não se tem cidadãos conscientes, honestos e felizes. Nunca teremos professores de qualidade sem remuneração justa que lhe dê a paz necessária para dedicarem aos filhos da sociedade. Reflitamos!


Alberto Consolaro é?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

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Email: consolaro@uol.com.br

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