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Repensemos abrigos e clínicas de repouso

Catarina Carvalho
| Tempo de leitura: 2 min

Há uns quinze dias atrás, eu, como diretora pedagógica da Apiece, senti um desconforto muito grande na decisão de técnicos de Bauru de abrigar, do dia para a noite, uma adolescente deficiente mental, separando-a de seus dois irmãos e do pai. Não que estivesse tudo bem na sua casa, mas existiam vínculos fraternais e vizinhos bem próximos.
A decisão foi cumprida, mas minha insatisfação não aceitou, como não aceita, mudanças radicais na vida daqueles que não entendem os momentos e só sofrem e até sorriem sem saber nada dos locais e das pessoas. E pus-me a defender minhas ideias e convicções de uma vida madura e experiente. E várias técnicas da assistência social, por conta da palavra protetiva, ouviam, mas nos olhos de cada uma estava demonstrada a contrariedade com as minhas argumentações. Uma hora eu disse que abrigo e clínica de repouso não eram a salvação das crianças, adolescentes e idosos, pois, fechadas as portas, ninguém tinha conhecimento do que efetivamente acontecia com as pessoas lá "esquecidas". No primeiro tempo das minhas discussões veementes, parecia que somente eu pensava no dia seguinte. Como se a verdadeira história tivesse um final feliz ali. E estavam apenas começando grandes problemas e conflitos para todos os familiares e profissionais que vislumbram em cada olhar um futuro.
No segundo tempo, tive a impressão que os raciocínios dos profissionais estavam arredondando e analisando o conjunto da obra e não apenas uma parcial de valores. Mas continuei desconfortada e com vontade de parar todo meu trabalho pedagógico e social. Pensando seriamente estar sozinha e com milhares de tratados e livros sobre os ombros, desliguei o pensamento dessa inquietação e sentei-me à noite na sala de TV, para acompanhar as notícias. Sem informação não dá mesmo para viver!
Para perplexidade minha e de todos que acompanharam o noticiário no JC de sexta-feira, dia 29, e o Jornal Nacional de sábado, 30 de maio, com a notícia "Idosa morre queimada numa clínica de repouso", num bairro de luxo na vizinha cidade de Jaú, fechei minha argumentação. Não havia mais nada a falar. Estava no nosso jornal e no telão do mundo! E complementaram a notícia informando que não havia equipe, técnicos, alvará e responsabilidade do município. Enfim, totalmente irregular "essa medida protetiva", e de altíssimo custo para as famílias.
Portanto, não bastam medidas superficiais, por mais bem intencionadas que sejam. Como tudo neste País, aliás, é hora de revermos políticas que caducaram com o tempo se quisermos alcançar ao menos um lampejo do que é o estado de bem-estar social de países mais desenvolvidos. Ou alguém duvida que temos de repensar este nosso imenso e forte Brasil?

A autora é professora

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