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Zanini: “Creiam em Deus e vivam cada dia” |
O cirurgião craniofacial Sílvio Zanini morreu ontem em casa, em Porto Alegre, aos 78 anos. Ele lutava contra a E.L.A. (Esclerose Lateral Amiotrófica), doença degenerativa rara, há três décadas. Recentemente, a E.L.A. foi difundida por redes sociais graças ao Ice Bucket Challenge, no Brasil, Desafio do Balde de Gelo.
Em Bauru, Zanini foi criador e coordenador da equipe de cirurgia craniofacial do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho) da Universidade de São Paulo (USP). O médico permaneceu ligado à instituição por 15 anos.
Quando já não tinha controle das mãos, orientava os profissionais em procedimentos e aulas numa cadeira de rodas - sempre com apoio da esposa Nilva Klein Zanini, 67, com quem teve dois filhos e quatro netos. Sílvio Zanini foi, ainda, autor de vários livros, entre os quais “Ela e Eu: Minha relação com a Esclerose Lateral Amiotrófica”.
‘Nunca se abateu’
“Ele e sua equipe vinham bimestralmente de Porto Alegre a Bauru e operavam dezenas de pacientes portadores das síndromes e desordens mais desafiadoras dentro da subespecialidade da cirurgia plástica. O Centrinho já foi, por sua causa, o hospital no Brasil com o maior volume de casos operados em um ano”, disse ontem o cirurgião plástico e amigo de Zanini, Eudes Soares de Sá Nóbrega, do Centrinho.
“Foi uma pessoa maravilhosa e inspiradora em todos os sentidos”, resumiu, em seu Facebook, o cirurgião plástico e professor da Faculdade de Medicina de Botucatu Fausto Viterbo. “Apesar de ser portador de Esclerose Lateral Amiotrófica, nunca se abateu e nem perdeu o bom humor. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica perde um de seus mais nobres membros. Os amigos o terão na lembrança para sempre”.
O velório ocorreu neste domingo, na capela 6 do Cemitério Municipal da Santa Casa de Porto Alegre, e o enterro está marcado para as 14h de hoje no Cemitério Municipal de São Sebastião do Caí, município a 60 quilômetros da capital gaúcha.
Em 2014, Zanini concedeu entrevista ao JC por telefone. À repórter Bruna Dias, reafirmou sua disposição de seguir em frente ao dizer “creiam em Deus e vivam cada dia”.
'Ele foi um herói'
“Doutor Zanini conseguiu estender seu prazo de validade como ninguém. Foi um herói. Em 1986, estive com ele num neurologista nos EUA. Ele lhe deu dez anos de vida. Cinco produtivos e cinco numa cama. Ele surpreendeu a todos. Escreveu e editou mais de seis livros didáticos e de contos. Foi chefe do serviço de cirurgia craniofacial aqui e em Botucatu. Enfrentou outras doenças cruéis, além da sua E.L.A. Teve um infarto recentemente e agora descansou. Deixou um grande exemplo de perseverança, resistência, competência e otimismo diante das adversidades que a vida trouxe”, diz o amigo Eudes.
Trecho de entrevista ao JC publicada em 22/8/2014
Jornal da Cidade - Quando começou a trabalhar no Centrinho de Bauru como cirurgião craniofacial e quando descobriu a doença?
Sílvio Zanini - Os sinais da E.L.A. começaram em fins de 1985, mas pouco se conhecia da doença na época. A convite do doutor Eudes Nóbrega, cheguei ao Centrinho de Bauru para apresentar a minha pequena experiência em cirurgia craniofacial arrastando as pernas com duas bengalas e para conhecer o homem que mais admiro na vida, o professor doutor José Alberto de Souza Freitas (Tio Gastão). Esse homem, após a minha apresentação, venceu preconceitos e me convidou para, juntos, criarmos a equipe craniofacial do Centrinho. Em 1990, fui contratado.
JC - Como se sentiu? Sendo médico, o senhor sabia cada dificuldade que iria enfrentar?
Zanini - Eu sabia bem como médico o que teria de passar e o que teria de enfrentar com essa doença neurodegenerativa incurável e letal.
JC - O senhor chegou a comandar equipes de cirurgia mesmo não podendo mais operar os instrumentos cirúrgicos. Como foi essa fase?
Zanini - Foi muito difícil, mas era tudo que eu tinha e a razão da minha vida.
JC - Uma mensagem sobre sua história de vida...
Sílvio - O que posso dizer é: creiam em Deus e vivam cada dia.