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Acamados acolhidos a 58 km de Bauru

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

A falta de uma unidade pública de internação de longa permanência – casos que ultrapassem meses ou até anos de internação – para pessoas acamadas ou com deficiências graves em Bauru tem feito pacientes viajarem 58 quilômetros em busca de atendimento. 

 

Isso porque a demanda do município tem sido atendida por duas instituições localizadas em Pirajuí, o Hospital Lar Irmã Dulce na Providência de Deus e a Sociedade Beneficente Bezerra de Menezes. 

 

Dos pacientes desta última, mais de 60% são de Bauru, principalmente pessoas que viviam em situação de rua na cidade ou que não possuem referência familiar. A entidade não é conveniada com o Estado e tem enfrentado dificuldades para sobreviver (leia mais abaixo).

 

Após viver anos cuidando de gatos e realizando a manutenção de túmulos nas imediações do Cemitério da Saudade, Arcanja Leocádia dos Anjos, de 76 anos, é uma das pacientes de Bauru internadas na Sociedade Beneficente Bezerra de Menezes. Há dois anos vivendo no local por conta de uma trombose em uma das pernas, ela teve seu quadro de saúde revertido. Por conta disso, a amputação, que antes era necessidade médica, acabou descartada nos últimos meses. 

 

Distante de Bauru e dos amigos que fez ao longo da vida, ela só tem pensado em uma coisa nos últimos tempos: voltar pra casa. “Sinto saudade dos meus gatos e dos amigos que fiz em Bauru”, ressalta a idosa. 

 

Liberação que a coordenadora da entidade, Gislaine Shimada, frisa não ser tão simples assim, justamente pela defasagem no sistema em Bauru. “Ela ainda precisa de cuidados, e como não tem contato com familiares e a cidade não possui uma unidade de referência, fica difícil. Mas estamos em conversa com o município por conta da evolução do caso”, afirma Gislaine

 

Demanda e assistência

 

Dos 145 internos do Bezerra de Menezes, ao menos 90 são pacientes de Bauru, com idade média entre 24 a 95 anos e estão internados no local há, pelo menos, um ano. “A maioria ocupava leitos de hospitais antes de vir pra cá. São quase sempre pacientes acamados e não possuem contato com a família”, reforça Gislaine “Já tivemos até que negar internação nas últimas semanas, por lotação”, detalha.

 

Nos últimos anos, Bauru avançou no atendimento voltado às pessoas com deficiências leves com a inauguração de seis residências inclusivas e uma casa lar, mantidas pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes). Todas atendem principalmente pessoas que não possuem referência familiar ou foram vítimas de abandono.

 

O atendimento oferecido pelo município, no entanto, segundo explica a titular da pasta, Darlene Tendolo, atende apenas pessoas que não necessitam de cuidados médicos rotineiros, já que as unidades não possuem profissionais específicos da área. 

 

“Não podemos pagar medicamentos com verba da assistência. Estamos impedidos de receber pacientes mais graves. Casos de alta complexidade são de responsabilidade do Estado”, frisa a secretária. “O que temos feito é uma ação conjunta com a Saúde nos casos em que a vulnerabilidade do paciente é constatada”, acrescenta.

 

Nos últimos meses, inclusive, a Sebes intermediou a internação de quatro idosos junto à instituição Bezerra de Menezes.

 

Custeado

 

Responsável pelos casos de alta complexidade no município, o Departamento Regional de Saúde da região de Bauru (DRS-6) negou que exista fluxo hospitalar junto ao Bezerra de Menezes por parte do Estado. Os casos são encaminhados sempre ao Lar Irmã Dulce da Providência de Deus, o qual recebe repasses para o custeio 231 leitos, todos destinados para internação de pacientes que necessitem de cuidados prolongados de até 90 dias. 

 

A permanência no local, segundo esclarece a Secretaria de Estado de Saúde, no entanto, pode ser estendida de acordo com o quadro do paciente. Desde o ano passado, a pasta diz já ter repassado R$ 7,7 milhões para a entidade em questão.

 

Ainda de acordo com a pasta, não há estudo para implantação de uma unidade de referência de longa permanência em Bauru, já que o serviço, conforme a Secretaria, não é preconizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mas o órgão ressalta que tem oferecido o atendimento permanente aos pacientes de alta complexidade por meio do Hospital de Base e Hospital Estadual. Os pacientes só seriam encaminhados ao Lar Irmã Dulce quando apresentam alguma evolução no quadro. 

 

Até o final da última semana, a unidade disponibilizava leitos para internação, segundo a pasta. A secretaria ressaltou ainda que casos de vulnerabilidade social não são de competência do Estado, mas da assistência social de Bauru.

 

O QUE DIZ O MUNICÍPIO?

 

Sobre os atendimentos de longa permanência aos pacientes com doenças ou deficiências graves, a Prefeitura Municipal de Bauru informou que oferece há anos, por meio do Programa Municipal de Atenção ao Idoso (Promai), equipe multidisciplinar para atender a domicílio pessoas acamadas acima dos 60 anos.

 

Além disso, diz que tem disponibilizado o mesmo tipo de atendimento para pacientes com idade inferior por meio das Unidades de Saúde da Família.

 

O município, no entanto, reconhece a defasagem no serviço quando os pacientes são pessoas em situação de rua ou que não possuem referência familiar. Nesses casos, a  Sebes afirma que acaba intermediando.

 

Entidade de Pirajuí que recebe os bauruenses sobrevive de doações 

 

Cada paciente acamado custa em média R$ 1.300,00 para a Sociedade Beneficente Bezerra de Menezes, uma das únicas instituições que atende casos crônicos na região de Bauru. Sem convênio com o Estado, a entidade filantrópica diz passar por dificuldades para se manter, já que grande parte são pessoas sem vínculos familiares ou que viviam em situação de rua.

 

“Temos sobrevivido de doações de famílias e pessoas que ajudam”, pontua a coordenadora do local, Gislaine Shimada. 

 

Pra se ter ideia, a entidade consome cerca de 7 mil fraudas geriátricas por mês. “Em alguns casos, ficamos com parte da aposentadoria ou benefício do atendido, mas o valor é quase sempre inferior”, completa a coordenadora.

 

A seriedade do serviço prestado pela entidade de Pirajuí, inclusive, é reconhecida pela titular da Sebes, Darlene Tendolo. A secretária diz que a pasta tem doado roupas com frequência para a instituição como forma de ajudar e agradecer o trabalho prestado. 

 

Outra parceria com a entidade é organizada por Rose Lopes, da Casa da Sopa da Vila Dutra, e pela rede Confiança, que estiveram no local levando mantimentos nas últimas semanas.

 

Serviço

O contato da Sociedade Beneficente Bezerra de Menezes para ajuda ou doações é o (14) 3572-1498.

 

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