Regional

Torrinha ensina como fazer viola

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

O projeto de Torrinha é dividido em duas partes: a fabricação da viola e o ensino da música. O mestre Wilson César Hubener foi aluno da primeira turma do aprendizado de fabricação de violas. Atualmente, ele é instrutor. Marceneiro, ele confessa que sua profissão o ajudou a adquirir novas habilidades. “O primeiro curso foi ministrado por João Mira. No ano seguinte, passei a ser assistente dele e hoje sou o instrutor. Nesse terceiro curso eu ensino aquilo que aprendi.”

Construir violas para tocar é uma etapa do projeto. “O curso oferece a madeira para que cada aluno construa a sua e passe a tocar o instrumento musical. Outra ascensão é ir para a orquestra de viola. Alguns alunos vão, outros não querem participar dessa fase. Fabricamos 60 violas desde o início. Sou marceneiro há 27 anos. Minha atividade facilitou a mudança.”  

Nas aulas de música, segundo o mestre, há instruções teóricas e práticas. “Mas o professor passa teoria também. Estou aprendendo a tocar, sou aluno da orquestra. Aprendemos música de raiz e atuais. Estamos terminando a gravação do primeiro CD. Vamos vendê-lo. Ainda não decidimos como será feita a venda, talvez em parceria com lojas, no boca a boca, nas apresentações que fazemos. Temos feito muitas apresentações, na região.”

Na opinião dele, houve um período em que a viola ficou esquecida, pelo menos em Torrinha, onde ele mora. “A orquestra de viola vem crescendo na região. O pessoal tem visto o resultado da nossa. Vamos tocar em Jaú, a de Itapuí também vai se apresentar . No mesmo dia vamos para Dourado, eles estão iniciando uma orquestra de viola. O convite talvez  seja até para saber qual a estrutura que temos.”

Hubener frisa que por um determinado período não se via violeiros na cidade. “Só em churrascos de família. A gente foi percebendo que estava diminuindo. A Associação Amigos de Torrinha montou o projeto para incentivar e resgatar a tradição caipira. Atualmente Torrinha tem muito violeiro novo.”

O curso é realizado na Estação Ferroviária do Município de Torrinha e é ministrado por um violeiro contratado da região, Marcelo Nave Sarti, em diferentes turmas e horários. A primeira turma formada em 2011, contou com 12 alunos. No ano seguinte, teve início a segunda turma de orquestra, com mais 12 alunos.


Origem da viola

As violas caipiras tiveram origem nas violas portuguesas que foram trazidas ao Brasil por colonos portugueses. O instrumento foi usado pelos jesuítas na catequese indígena e posteriormente, os primeiros caboclos construíram as suas a partir de madeiras tostas da terra. Foi assim que nasceu a viola caipira.

O instrumento é muito semelhante ao violão. A viola se destaca dos demais instrumentos porque no ponteiro utiliza muito as cordas soltas para obter um som forte sem distorções, se bem afinada. Para tocar a viola e ter um timbre mais forte, o violeiro usa a palheta, dedeira ou unhas compridas. As cordas são de aço e algumas são muito finas e duras. A disposição das cordas é específica: dez dispostas em cinco pares.


O que faz um luthier

O luthier é o ‘artista’ dos instrumentos musicais acústicos. É ele que ouve o músico, interpreta suas aspirações e constrói um instrumento de timbre pessoal. O trabalho minucioso, respeitando recortes, espessuras dão um toque exato do som e tom. Além de criar instrumentos é ele quem faz a manutenção e consertos.


Apaixonado por viola se transforma em fabricante   

João Paulo Omodei, 34 anos, não tem músicos na família e nunca tinha se interessado por viola. Trabalhava como administrador de empresas na Embraer de Botucatu. Mas, há sete anos, conheceu o instrumento musical e mudou sua vida. Começou a aprender a tocar viola e, na sequência, a produzir. Já fabricou 232 instrumentos, entre violão e viola. Os instrumentos musicais fabricados por ele estão espalhados por todo o Brasil, em dez Estados, dentre eles São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Santa Catarina, Goiás, Rondônia e Paraná. “Eu trabalhava no planejamento de produção da Embraer e me interessei pela viola. Fui aprender a tocar o instrumento. Me interessei pela fabricação. Foi quase uma brincadeira. Vi alguns vídeos sobre a fabricação, mas nenhum era explicativo. Minha primeira filha ia nascer e decidi fazer um violão para ela. Minha mulher achou meio estranho, no início. Afinal, eu não tinha a habilidade e nem ferramentas.”

Ele fez o primeiro violão, que atualmente ocupa lugar de destaque em sua oficina. Levou para o professor de música dele e o mestre, além de gostar, incentivou a fabricação do segundo. “Era um hobby. Não tinha conhecimento algum. Foi na raça. Na Internet tem muita ilustração. Então fui fazendo do meu jeito.”

A primeira venda rendeu cerca de R$ 500. “O primeiro a ser vendido teve como comprador um morador de Botucatu. O primeiro que fabriquei ficou comigo. Toquei nele, fiz muitas aulas com ele. O segundo saiu melhor. Eu já estava com algumas ferramentas. Em 2009 eu já tinha feito seis instrumentos. Fazia todos para mim, mas sempre aparecia alguém que se interessava e eu vendia.”

Demissão

Um corte de funcionários na Embraer fez com que o administrador se transformasse em um luthier. “Eu fui despedido, durante uma crise na empresa. Apareceram algumas oportunidades para ir para Piracicaba, Lençóis Paulista e Curitiba. Minha filha tinha nascido e minha mulher tinha emprego. As oportunidades não eram o que eu queria.”

Ele conversou com a mulher e decidiu investir na fabricação de violões clássicos e violas caipiras. “Fechei o fundo da casa e transformei em oficina. Quando saí da Embraer já tinha vendido sete instrumentos. Comecei a fabricar para a venda. Montei um site e procurei pelos professores da cidade e da região. O boca a boca foi a melhor propaganda. Uma pessoa  compra e outra vê e gosta.”

No Mercado Livre, ele vendeu seis instrumentos. “Começaram as encomendas então passei a trabalhar sob encomenda. Faço em média três por mês.  Hoje custa de R$ 3 mil a R$ 5 mil. Tem estojo, tem captação, madeiras raras, pessoa pode escolher, tem várias configurações de madeira.”

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