Quase ocultos e ofuscados pelo brilho eterno dos intérpretes, os autores de letras de música vivem um certo "anonimato sutil". É compreensível que seja assim. Se você se pega cantarolando "Travessia", composta ainda em 1967, logo vem à cabeça Milton Nascimento: "Solto a voz nas estradas, já não quero parar..." Ocorre que a letra toda, escrita num papelzinho, é de Fernando Brant ? que, anteontem, fez a sua própria travessia em Belo Horizonte. Morreu aos 68 anos e entrou para outro clube de uma esquina que ninguém sabe exatamente onde fica.
Como curioso musical, sempre tive forte interesse pelas histórias sobre as composições. Quando era ainda estudante de Rádio e TV, na década de 90, fiz um programa experimental para a Unesp FM chamado "Música Palavra". O propósito era valorizar os letristas. Porque a gente sempre fala em Ivan Lins, mas existe um Vitor Martins (letrista dele em sucessos como "Começar de Novo"). Para um João Bosto há um Aldir Blanc, autor da letra de "O Bêbado e o Equilibrista". Para Lô Borges tem o irmão, Márcio, de "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo", entre tantas.
Fernando Brant era uma estrela especial nessa constelação. Em "Canção da América", parceria com Milton Nascimento, exaltou a amizade do lado esquerdo do peito; em "Paisagem da Janela", com Lô, viu uma igreja e um sinal de glória. Em "Para Lennon e McCartney", com Lô e Márcio, disse que "não precisam mais temer". E em "Nos Bailes da Vida", composta com Milton, ajudou a resumir uma filosofia de vida: "Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol".
Cantar, propriamente, não era a praia ensolarada de Brant. Seu ofício foi sempre escrever e ver sua poesia virar sucesso popular de qualidade, como nos exemplos citados. Sucesso popular de qualidade: artigo meio raro hoje em dia.
As complicações decorrentes de um transplante de fígado abreviaram, de fato, uma carreira que ainda tinha muito a contribuir com o cancioneiro nacional. "Ele eternizou que amigo é coisa para se guardar. Digo que irmão é coisa para se guardar", declarou Moacyr Brant ao jornal "Estado de Minas". Ou como resumiu o guitarrista Toninho Horta: "Foi audaz, viajou fundo no coração das pessoas".
No respeito à memória de Brant fica a homenagem aos letristas. Que, por encanto, se virassem uma única pessoa, talvez pegassem emprestado outro trecho de "Travessia" para dizer: "Forte eu sou, mas não tem jeito. Hoje eu tenho que chorar".
O autor é editor executivo do JC