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Je suis chorumê

Bruno E. Sanches
| Tempo de leitura: 2 min

Embora muitos digam que não, que "imagina, cê tá exagerando", que não é bem por aí, que tudo ainda tem salvação, que as coisas podem tomar outro rumo, que é só dar uma ajustada ali outra aqui, tudo vai dar certo podes crer, que vamos todos juntos vamos, que é intriga da oposição, que nem tá cheirando tão mal assim, um dia vai melhorar não vai? Não sei. Melhor olhar em volta. Tá vendo? Não? Mas... olha bem, olha só. Conseguiu ver, agora? Ah, sim. Tem chorume a dar com pau, não tem? E fede demais, não fede?
E tá aí faz tempo, se você quer saber. O chorume está diluído e impregnado nos lixos, nos cantos de beco, nos centros e em periferias. Mas também está nas colunas sociais, nos condomínios afastados, nas mentes das pessoas, na política, na religião, no facebook, na caixa de comentários dos portais de notícia do Facebook, na resposta da resposta dos comentários da caixa de comentários dos portais de notícia do Facebook.
Hoje, temos chorume fabricado pela indústria. Temos suco de chorume. Vitamina de chorume. Cookies de chorume. Salgadinho de chorume. Chorume ao molho pardo. E, a nossa especialidade, o self-service de chorume. Alguns nem sabem que comem, bebem, inspiram, mas há os que já deixaram vazar. E nem ligam. Pois é. Parece que agora vai vazar. Vai vazar de vez. Há uma lagoa de chorume, e há rumores de que ela vai vazar. Vai vazar de vez? Mas já não vazou, o chorume? Que chorume é esse? Poderemos comer, beber, vestir chorume? E o gosto, é de chorume mesmo? É original?
Parece que este chorume, o que vai vazar e que é criado pelo lixo, é nosso também. E aí não sabemos onde colocá-lo. Até o momento, tem sido fácil reservar a ele um espacinho. Lá, ele não perturba muito. Mas ele cresce. Um pouco hoje, um tanto amanhã. Amanhã, essa lagoa ficará maior que o rio Tietê. Um espacinho. Je Suis chorumê. Restô d?ontê, chorumê. Rio Amazonas, Nilo, Danúbio, Sena. Chorumê.
Rios de chorume. Materiais, mentais, religiosos, políticos. Tem pra todo o lado, com todos os sabores, cheiros e cores possíveis. Tem pra todo o lado. E é preciso cuidar do chorume, honestamente, antes que ele nos seja. Antes que ele nos devore. Antes que ele nos engula. O chorume é meio carnívoro, sim. E o chorume não tem piedade. E o chorume não tem religião, tampouco partido político.
Seremos devorados pelo chorume. Aí, não tem boia de pato, nadadeiras e espaço que conseguirão resolver a imundície. A imundície nos será. Estaremos até o pescoço de chorume. As narinas já estarão acostumadas. Tem chorume pra todo o lado. Parece que vai vazar de vez. Sim, vai vazar de vez. Rio de chorume. Je suis chorumê. Não estou sentindo mais o cheiro do chorume. Je suis chorumê.


O autor é colaborador de Opinião
Twitter e Instagram: @brunochair
Blog?s http://brunocadera.blogspot.com
http://escutaessablog.wordpress.com

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