Próximo da esquina dos sonhos existe centenário jardim com suas árvores, bancos e muitas pessoas nos finais de semana concentradas apreciando feiras de artesanato e ofertas de animais para doação. Com a chegada da noite a praça e as ruas ficam iluminadas e multicoloridas. A cidade prepara-se para dormir ficando à mercê de motoristas e motoqueiros apressados disputando corridas nas ruas quase desertas de pedestres e assustando, assim, os eventuais hóspedes da praça. Mendigos são vistos por ali na expectativa de conseguirem algumas moedas garantidoras da sobrevivência ou na espera de algum albergue para recebê-los nas noites de inverno. Para eles o amanhã também será um novo dia...
Durante o dia o cantar dos pássaros transportou em devaneios os ocupantes da praça. Copas das árvores recebem agora os seus moradores, pássaros procurando seus ninhos e esperam a chegada da aurora para voarem por este mundo de Deus; ali também foi palco de seresteiros cantadores. É fácil encontrar o cancioneiro Raul Torres empunhando sua viola, apoiado em um banco da praça vai com a sua voz canora e linda entoando as cantigas do sertão. Para os mais sensíveis, aqueles que ouvem o passar do vento ouvem também, ao longe o pontear seguro da chorosa viola contando a história da "Cabocla Teresa" e, em seguida, os lamentos e as promessas do cantador ao "Pingo d?água". Ele havia assistido à última tarde do outono e, como sempre, ficava deslumbrado com as maravilhas concedidas por Deus àqueles que apreciam a exuberância do sol bordando o céu atrás das nuvens. Ele sabia que o vento brando, a brisa noturna, exigiriam na manhã seguinte o uso de uma roupa grossa e pesada; diziam alhures que o inverno seria rigoroso e lamentava apenas não encontrar nas vitrines das lojas um chapéu de feltro Ramenzoni ou Prada, daqueles usados pelo pai.
A chegada do inverno transforma o bosque em canteiro de obras das prudentes formigas. Mesmo assim, naquele sábado um sol muito branco inundava de luz a cidade amanhecida e ele fazia o que mais gostava: andar pelas ruas na agradável companhia da sua amada, parar na banca de jornais, tomar um café bem quente no Pirâmides, atravessar de uma rua para outra rememorando sonhos da juventude. Durante a semana a esquina assistia ao vai e vem de pessoas de todas as idades. Assim como as formigas do bosque elas, com segurança, procuravam ajustar suas necessidades às vicissitudes do cotidiano. Aos sábados, a esquina transformava-se em palco de discursos inflamados; oradores com livros à mão incutiam a esperança para um mundo melhor... A esquina dos sonhos não era só isso, era muito mais! Nas vezes em que transitava por ela, sentia-se revigorado em suas energias vitais... Uma jovem muito simpática tinha como hábito deixar à mostra uma cesta contendo bolinhos recheados de goiabada recobertos de açúcar e canela reconhecido por todos como Sonho. Ele não sabia se o nome dela era Preciosa, Simony ou Antoninha...
Nas andanças que fazia e ao cumprimentá-la com um gesto, recebia, além da oferta do produto, ouvia uma sutil delicadeza quando ela dizia... " ? o senhor está um luxo!". É claro, ele não estava acostumado ao luxo e nem a ouvir gentilezas e delicadezas em ruas de grande movimento. Encabulado, apressou o passo e entrou na primeira loja para recobrar-se do susto tomado. Estaria sonhando acordado ou foi um susto mesmo...
Roque Roberto Pires de Carvalho