Não há hoje nenhuma teoria científica que defenda que o ser humano seja um mero animal, reduzindo-o a concepções biologizantes. Para estudar a espécie humana, a Biologia não basta, sendo necessários aportes teóricos das Ciências Humanas, como a Psicologia, Sociologia, etc. Já educar significa desenvolver o ser humano e, para que isso seja feito de maneira rigorosa no processo escolar, é necessário ir além da Pedagogia e da Didática, recorrendo a modelos teóricos das Ciências Sociais, para que se possa pensar a Educação como um fenômeno integral.
Uma análise isenta do atual Plano Municipal de Educação (PME) mostra que ele tem suporte científico e prima pela coerência epistemológica e metodológica ao recorrer tanto a teorias das Ciências da Educação, quanto das demais Ciências Humanas. Revisões e críticas ao PME são necessárias, mas suas orientações curriculares devem ser analisadas de forma científica e não ao sabor de preconceitos de qualquer natureza.
Mas não foi isso o que ocorreu para suprimir pontos que estão em estrita coerência teórica com o restante do PME. Recorreu-se ao obscurantismo e ao uso de força política de setores religiosos, o que nada fica a dever aos ataques que a Ciência em geral sofre desde a Inquisição.
Isso é mais um agravante num país que tem um déficit de formação de quadros científicos e um sistema educacional sofrível quanto à qualidade de ensino. O ataque que vereadores, autointitulados religiosos, perpetraram contra o PME constitui-se a própria vanguarda do atraso: ao privar crianças e adolescentes bauruenses do contato com teorias científicas no campo da sexualidade humana, jogam água no moinho de tornar esses seres, ainda em formação, reféns de visões de mundo irracionalistas.
Deixar definições curriculares ao sabor do arbítrio desses senhores, representantes do fundamentalismo religioso, leva até a sonegar às novas gerações conhecimentos como o da teoria de Darwin ou do "Big Bang", conforme ocorreu em 1999 no Kansas (um dos estados do chamado cinturão religioso dos EUA).
O interessante é que não há setores científicos brasileiros que usem de força política para tentar proibir práticas que ocorrem nas igrejas ou suprimir trechos de textos religiosos, o que seria incoerente e ilegítimo. Por que o oposto seria legítimo?
Geraldo A. Bergamo