Disse um juiz, dias atrás, que o jogo sujo no campo político brasileiro terá fim no dia em que postulantes e eleitos deixarem de tratar a coisa pública como coisa privada. Faz sentido. Caso contrário, como se vê, mudam as moscas, mas a m. é a mesma. Quer dizer: vira montanha de m. E a palavra de ordem da “moda-mosca” é “propina”.
Vejo que, em Portugal, “propina” significa – olhem só – taxa paga pelo estudante do ensino superior. Um jornal de lá traz a seguinte manchete: “Portugal entre os dez países da Europa com propinas mais altas”. “Os quase mil euros de propina máxima cobrados no último ano lectivo pelas universidades portuguesas colocam o país entre os mais caros da Europa para se estudar no ensino superior”. Quem lidera a propina educacional legal europeia é o Reino Unido.
Em Angola, também tem essa outra propina. Notícia por lá: “O governo angolano está a ordenar às instituições de ensino superior a devolução, no arranque do novo ano letivo, da propina cobrada aos alunos em maio, quando decorreu o recenseamento da população”.
Quanta diferença com a propina daqui. Há o combate, mas não achamos meios de nocautear a praga da mão grande. E esse “pedágio sanguessuga” martela na cabeça do eleitor.
O problema é que, culturalmente, fomos criados para achar “normal” e quase “folclórico” roubar na política – e “exagero” e até “exibicionismo” cobrar diretamente honestidade. Cobrar mesmo: ligando, enviando e-mails... Quem aí sabe o telefone ou e-mail ou site ou blog ou sei-lá-o-quê de algum político em quem tenha votado?
Para piorar, os políticos com alguma vergonha na cara devem estar, no mínimo, constrangidos com tanto “larapismo”. Se os bons se vão, quem fica?
A propina de Portugal e Angola, que ajuda a bancar custos da universidade, não deve agradar a todos. Mas, ainda assim, fica bem distante de ser corrosiva como a nossa aqui da ex-pátria de chuteiras.
Aqui, sim, é que brota propina vistosa, de presença, bonita, de encher os olhos e as contas em paraísos fiscais. Nem vem que não tem: pátria da propina, mesmo, só o Brasil. País onde, contrariando aquele juiz, o jogo sujo talvez nunca chegue ao fim.
O autor é editor executivo do JC