Da Feira Literária Internacional de Parati gosto de tudo. Confesso que gosto mais ainda de algumas árvores. Na Flip, há renomados escritores, celebridades, mesas-redondas, shows musicais, teatro, cordel, literatura em profusão e nela só se respira cultura, da melhor possível. Mas na Flip, repito, gosto mais de algumas árvores. E por uma razão bem simples: elas não dão frutos, dão livros.
Amarrados nos galhos, os livros ficam balançando à espera das crianças. Cena da mais pura liberdade: os pequenos es-“colhendo” os frutos-livros que serão “comidos” pelos olhos da imaginação. Numa alegria sem igual, vão arrancando dos galhos - atraídos pelas capas e pelos títulos - os livros que escolhem. Sabem de antemão que, depois de colhido, o livro pode ser gostado ou não. No caso do não, pode ser trocado com os coleguinhas ou até mesmo recusado e devolvido à árvore generosa. Aprendem assim, desce cedo, que é legítimo recusar aquilo de que não se gosta. De livro também se gosta ou não. Livro tem sabores diferentes, alguns são indigestos. Para nós, adultos, essa é uma questão superada: leitura sem prazer é leitura recusada.
Em “Como um romance”, Daniel Pennac diz que há três coisas que não podemos obrigar ninguém a fazer: sonhar, amar e ler. É verdade. Sonhar, amar e ler são atos da mais pura liberdade. Obrigar todas as crianças a lerem um livro único para responderem a questionários chatos - e também obrigatórios - só prejudica a desejada formação do leitor.
Claro que estamos falando da linguagem estética, da linguagem das artes, da linguagem literária. Outras leituras existem, cuja obrigatoriedade é plenamente justificável na ambiência escolar. É o caso das leitura compromissada com o conhecimento, a leitura do aprender. Mas a escola precisa tratar com mais atenção a outra leitura, a do sentir. Se a leitura do conhecimento quer formar o homem-razão, a leitura do sentir quer formar o homem-sensibilidade, o esteta. Do grego “aisthetés”(aquele que sente), o homem esteta é aquele que se extasia com o belo e o cultiva pela emoção. Diga-se um homem especial.
Muito bom seria se desenvolvêssemos, em igual medida, tanto o homem pensante quanto o homem sensível. Penso, contudo, que nós, educadores, não estamos cumprindo bem a formação desse segundo homem, o da sensibilidade. As manchetes de sangue e de lama do cotidiano jornalístico me fazem pensar assim. A escola precisa investir na razão, claro. Mas e a sensibilidade?
A poesia, essa esquecida, nas poucas vezes que surge na sala de aula vem para ser “entendida” e muito pouco para ser sentida. O questionário quer saber “o que poeta quis dizer” para que se possa, enfim, “entendê-lo”. Nesse exercício puramente racional, perdem-se a estesia, a sonoridade, os ritmos, as figuras, as ambiguidades, a engenhosidade... Perde-se, enfim, a arte. Sendo música, a poesia não quer ser apenas “estudada”, dialogando com a razão. Quer ser cantada, declamada, quer ser prazer, conversar baixinho com a emoção.
Agora, estou pensando em Machado, Graciliano, Clarice, Cecília, Guimarães... É triste saber que todos foram fatiados para virar “resumo” em leituras de vestibular. E o que dizer da escritora Patrícia Secco, que está se especializando em “reescrever” os clássicos da nossa literatura. Ouçamo-la: “Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis. Os livros dele têm cinco ou seis palavras que os alunos não entendem por frase. Eu simplifico isso.” Incrível, mas foi o que ela fez na versão de “O Alienista”, obra machadiana de 1882. Trocou palavras – sagacidade virou esperteza – sem vacilar meteu a caneta vermelha no texto de quem? Simplesmente (cruzes!) do genial Machado.
O professor de literatura da USP Alcides Villaça não se segurou: “Apresentar como sendo do Machado uma mutilação bisonha não devia dar cadeia?”. Devia sim, professor. Mas no Brasil dá dinheiro. Edição esgotada, todo mundo quer passar no vestibular.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras.