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Já foi o tempo em que a única preocupação das crianças e jovens era com a cor, formato ou tamanho das pipas. A “disputa” por mais espaço no céu vem se tornando uma brincadeira cada vez mais perigosa. Neste ano, dispararam os apagões causados por cerol. Somente em julho, mês de férias escolares, as linhas com cortantes provocaram queda no fornecimento de energia elétrica a 34.290 clientes em Bauru, conforme estatística apresentada pela CPFL Paulista.
Entre 1 de julho e 2 de agosto, foram registrados 74 desligamentos - quase dois por dia -, em bairros distintos da cidade. Ao todo, 137 mil pessoas ficaram “no escuro”, considerando a média de quatro moradores por imóvel.
O levantamento preocupa em razão do grande aumento de casos de um ano para o outro, já que, em julho de 2014, a companhia contabilizou 23 incidentes com pipas, que geraram prejuízo para 5.616 clientes (ou 22.464 pessoas). Isso significa que as ocorrências mais que dobraram e o número de imóveis prejudicados com a falta de energia cresceu seis vezes em 2015.
Como resultado da péssima prática, os moradores afetados pelas interrupções de energia permaneceram, em média, de 1 a 2 horas e meia às escuras, conforme apontou o engenheiro chefe da concessionária em Bauru, Carlos Eduardo Mady. “Os pontos mais atingidos foram as regiões do Parque Jaraguá, Ouro Verde e Vila Industrial”, enumera.
Finais de semana
Os apagões, entretanto, são mais frequentes aos finais de semana, quando são contabilizados até mais de 6 mil clientes afetados, ante menos de 1 mil entre segunda e sexta-feira, observa Mady. “Tivemos domingos com 6.200 desligamentos. No dia 2 deste mês, também em um domingo, durante as festividades do aniversário de Bauru, foram registrados 12.068”, relatou.
O engenheiro não soube precisar porque houve aumento brusco de incidentes no mês passado, comparado com 2014. “Tenho observado maior incidência de ventos, o que acaba incentivando a garotada. Do ponto de vista técnico, as ocorrências aconteceram em locais de difícil manobra para o religamento através de alguma rede próxima. No ano passado, nem sempre quando um cabo se rompia resultava em desligamentos em massa”, explicou.
13.200 volts
Embora a pipa seja aparentemente inofensiva, pode ser fatal quando utilizada de forma inadequada, principalmente próximo a redes elétricas. Apesar do alto número de ocorrências em julho, por sorte, não houve nenhum registro de acidentes. “Nossa maior preocupação são os choques”, salientou Mady.
Os cabos (fios), que foram rompidos por cerol, conduzem até 13.200 volts, conforme explicou o engenheiro. “Em algumas situações, 220 volts já são suficientes para levar uma pessoa à morte”, observa. “Quando o cabo se rompe, ocorrem três religamentos automáticos de energia, com espaço de 30 segundos entre um e outro. Nesse meio tempo, alguém pode encostar no fio energizado, o que seria fatal”, alerta.
Segundo Mady, o perigo é ainda mais iminente para quem está soltando pipa, principalmente se estiver fazendo uso de linha chilena - mistura de óxido de alumínio e quartzo moído, com poder de corte quatro vezes maior do que o cerol. “Como essa linha contém alumínio, conduz energia com mais facilidade”, explica.
O engenheiro diz que a CPFL não mede esforços quando o assunto é conscientizar a população. “Através da Cepae (Campanha Extrema de Prevenção de Acidentes Elétricos), colaboradores visitam escolas e lojas de materiais elétricos para incentivar a soltura de pipas de forma adequada e segura”.
PM só fiscaliza por meio de denúncia ou atitude suspeita
Indagado quanto à frequência na fiscalização para inibir a prática do uso de cerol ou linha chilena nas pipas, o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), tenente-coronel Flávio Jun Kitazume explicou que as abordagens ocorrem somente mediante denúncias ou quando há atitude suspeita.
“Nós não priorizamos somente este tipo de ocorrência. Registramos algumas demandas, que fizemos a averiguação e apreensão, porém, não temos estatística para apresentar. As fiscalizações são reforçadas em grandes eventos, como no aniversário da cidade”, pontou.
No último final de semana, durante as festividades do Viva Bauru, conforme noticiou o JC, a PM, em parceria com o Lions Clube de Bauru Norte, desencadeou uma intensa campanha educativa sobre os perigos do uso do cerol.
Foram distribuídos panfletos ao público e apreendidas linhas com o chamado “cortante”. O material apreendido será processado e a matéria prima linha, revertida para confecção de roupas de projetos sociais do Lions.
Cerol corta até antena de carro
Uma antena de alumínio (revestida de borracha), instalada no teto de um carro, foi cortada ao meio por linha com cortante em Bauru. Pelo estrago, o mototaxista Fábio William Ramos, 40 anos, dono do veículo, suspeita que a estrutura tenha sido atingida por linha chilena.
O episódio ocorreu no bairro Nova Bauru, há cerca de uma semana.
No Astra de Fábio estavam a esposa e os filhos - um menino de 3 anos e uma bebê de apenas 5 meses. “Ouvi a criançada gritando, querendo me avisar alguma coisa. Desci do carro, vi linhas de pipa e percebi que a antena havia sido cortada. Sorte que não foi uma vida”, observou Fábio.
Após a denúncia do mototaxista, a reportagem do JC percorreu o bairro e flagrou diversas crianças, entre 8 a 10 anos, utilizando linha chilena nas pipas. Uma delas disse, com naturalidade, que é comum o uso de cortante em papagaios, cujo material é facilmente adquirido em algumas lojas da cidade.
Motos
O episódio da antena do carro acendeu um alerta: o cortante em pipas é capaz de danificar antenas instaladas em mototáxis para proteger o motociclista? Gerente de trânsito da Emdurb, Nelson Augusto Neto disse que não.
“Antenas de carro são de alumínio fino. Já as de moto contêm um alumínio mais grosso e, algumas, são feitas de ferro fundido. Quando o cerol atinge a antena, desliza até a ponta, onde há uma dobra com navalha que corta a linha antes de chegar ao condutor”.
Corte no pescoço
Em Macatuba, conforme noticiou o JC na edição de quarta-feira da semana passada, um homem de 48 anos sofreu corte no pescoço após ser atingido por linha com cerol quando tocava gado de moto em uma propriedade na zona rural da cidade. O agropecuarista foi socorrido, desacordado e todo ensanguentado, por um pescador que passava pelo local. A vítima foi submetida a tomografia no Hospital de Base (HB) de Bauru e, posteriormente, foi internada na Santa Casa de Pederneiras para observação médica.
