Tribuna do Leitor

Comentários sobre o toque de silêncio

Jorge Duarte Miguel
| Tempo de leitura: 2 min

Ao longo de 32 anos de carreira na Polícia Militar, não é de se espantar ter ouvido o Toque de Silêncio muitas e muitas vezes. As primeiras notas mágicas parecem tocar os sentimentos dos mais insensíveis. Sempre senti um nó na garganta e uma súbita coceira nos olhos. Optava por dissimular e controlar choro inevitável que, nessas horas, aflora dos sentimentos mais primitivos d’ alma. Tenho conseguido. Não que seja vergonha ou fraqueza, mas o “muro” de austeridade que nos é exigido diariamente “deve” - ao menos - parecer sólido. Há quem ache que o policial não sente fome, não fica triste, não vai ao banheiro, tampouco se emociona. Voltando ao toque: as notas são impressionantemente tristes; quando o corpo físico de nosso Herói policial desce à campa eterna há um entorpecimento traumatizante. Ouve-se o choro baixo e sentido das esposas, pais e amigos. Com pesar, percebo que a rotina nos tem tornado frios, muito, muito frios.

      

O sentimento de perda de um colega logo é substituído por outro e outro. A fila tem que andar e, com o tempo, o clamor enfraquece. Triste realidade! Lembram-se do nó na garganta que abordei no início do assunto? Pois bem, amenizou-se. Virou rotina! Vai-se um hoje, outro amanhã e a vida segue. Quantas bandeiras ainda serão entregues às viúvas e pais! Perdemos os Soldado Adriano, Soldado Sérgio (Tutu), Cabo Machado, Soldado Yuri, o Soldado Casemiro e outros tantos. É, meus amigos...

      

A magia do Toque de Silêncio transcende nosso entendimento. Espero, um dia, em breve, entendê-lo melhor. Maus presságios! Que pena! Inversão de valores. As pedras que nos são atiradas diariamente estão nos ferindo e nos machucando. Até quando? Como proteger a sociedade e a nós mesmos da melhor forma? Nesta semana, foram-se Cabo Estevam (Piracicaba) e Cabo Pereira (Osasco). Quem será amanhã? Filhos: se tiverem o pai vivo amanhã, abrace-o fortemente! Deus: proteja a todos! Feliz Mês dos Pais!

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