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Apitaço do trem

Nelson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 2 min

Em tempos de crise, soa insulto aos demais brasileiros, individualismo e corporativismo singular a presença maciça de homens de gravata e mulheres de salto e tailleur nos corredores e plenário da Câmara dos Deputados, em pleno agosto, em Brasília. 

 

Enquanto o governo central, em frangalhos como refém de seus próprios erros e afogado pela corrupção, tenta um bote salva-vidas nas mãos de timoneiros chantagistas nas duas casas legislativas, servidores da Advocacia Geral da União lá estavam para pressionar por aumento salarial muito acima ad inflação.

 

A medida beneficia, em cadeia, também procuradores e delegados das polícias federal e estadual. E, antes que alguém se levante sem se atentar para a essência da crítica: é salutar que o fortalecimento das instituições passe pela boa remuneração e reestruturação nas carreiras. E não se discute a importância dessas carreiras e de seus planos de carreira!

 

Mas quem paga a conta? Qual a relação de ’dosimetria’ conjuntural, estrutural e a explicação para a concessão de aumentos acima da inflação, como o fizeram com o Judiciário e Ministério Público nas últimas ocorrências para o tempo de crise? De onde esses brasileiros acham que vai sair a conta para um já combalido estado brasileiro?

 

Segundo os dados preliminares, o vencimento inicial de advogado da AGU está situado em R$ 17,3 mil, fora benefícios. Os recém-contratados passarão a ter vencimentos de R$ 27,5 mil com o “trem da alegria” que passou na Câmara dos Deputados. 

 

O pacote completo das medidas ainda incluía fiscais do trabalho, auditores da Receita e procuradores estaduais. Mesmo com a não aprovação dos novos ganhos para a “segunda turma” o gasto federal do que já foi aprovado significa mais R$ 2,4 bilhões aos cofres da União.

 

A ilha da fantasia paira em Brasília (DF), em detrimento aos milhões de aposentados que correm, desde já, risco de não contarem nem com a antecipação do 13º salário neste ano.

 

A escalada de gastança entre as esferas institucionais atinge quase todos os órgãos – no STF os ministros elevaram seus próprios ganhos para R$ 39 mil. Outro dia, recentemente, juízes passaram a contar com mais R$ 5 mil mensais como, digamos, “verba indenizatória”, para renovar o guarda roupa.

 

O esgarçamento social dos poucos que podem muito em detrimento dos muitos que podem pouco leva, gota a gota, o País à bancarrota civil, porque a degradação moral, institucional e política, há muito, está em curso. E nem adianta ir pra rua se vestir de bandeira e pintar o rosto por um dia. Em Brasília, atacam nosso País todos os dias, dentro e fora dos gabinetes. E continuamos dormindo em “berço esplêndido” de passividade.

 

O autor é compositor e jornalista         

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