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Forma ou conteúdo?

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

No mundo da comunicação, mais que a forma vale o conteúdo. Queremos a substância, não o acessório; a carne , não a pele; o embrulhado, não o papel que  embrulha; o de dentro, mais  que o de fora. No mundo da comunicação, vale muito mais o que se diz do que o modo de dizer. Pressa e pragmatismo. Coisa de ir direto ao ponto. Curto e grosso. Sinal dos tempos.

 

No mundo da expressão, tudo muda. Mais que o conteúdo vale a forma. Sabe o homem da palavra sedutora que  de nada vale o conteúdo  se não for  abraçado por uma criativa forma de dizer. Sabe o homem expressividade criativa que  tão  ou mais importante do que  se diz é o “como”. Não haverá sedução,  inexistindo a  inventividade do dizer. Para cada mão, uma luva  sob medida e corte diferentes. É preciso saber casar o de dentro com o de fora. Para cada conteúdo, uma forma única, jamais repetida.

 

Nestes slogans, a forma já é conteúdo: “Credite no Brasil” (Bamerindus); “Melhor que viver sonhando é sonhar vivendo” (Fernandes Mera Imobiliária); “O Brasil está perdendo a cabeça” (Sindicato Nacional dos Docentes). A esse cultivo da forma, o linguista russo Roman Jakobson chamou de função poética da linguagem. Para exemplificar o poder da forma expressiva, os manuais de retórica  costumam se valer de uma  narrativa de feliz elucidação. Peço licença para repeti-la. 

 

Um publicitário observou que, numa estação de metrô, um cego pedia esmola tendo à  frente um cartaz anunciando a sua infeliz condição. Os passantes simplesmente passavam, a maioria indiferente à  limitação do pobre homem. Por isso, o condoído publicitário dele se aproximou, pedindo-lhe autorização para apagar a palavra “cego” e escrever algo diferente no mesmo cartaz. Retornando uma semana depois,  indagou do cego se a situação havia se modificado. O cego, feliz porque as esmolas - agora generosas - não paravam de tilintar  em seu chapéu, perguntou ao publicitário que palavra mágica ele teria escrito na tabuleta. A resposta imediata: “Apenas uma frase: ‘É primavera e eu não consigo enxergá-la.’

 

Se digo que  estamos aceitando comodamente os males atuais sem a necessária indignação. Se  digo que o nosso comodismo e apatia estão enterrando a esperança de uma vida melhor, Se digo que estamos sendo engolidos pela indiferença, posto que já não lutamos..., nada mais faço do que  dizer o óbvio. Assim, privilegio o conteúdo, mas ignoro a forma. Minha palavra pertence apenas ao mundo da mera comunicação, ignora o plano da expressão.

 

Diferente de mim, mas dizendo a mesma coisa, a cronista Marina Colassanti transcende o mero conteúdo para privilegiar a forma, então trabalhada. É o recurso lingüístico a que chamamos isomorfismo.  Conferindo: “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundo e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender  mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.”

 

Gradativamente, Marina vai tecendo formalmente a teia suicida do crescente comodismo, cujos nós estão amarrados na repetição irritante da palavra “acostuma”. Eu e Marina Colassanti falamos sobre um mesmo tema: a banalização dos males cotidianos. A diferença, contudo,  é gritante. Eu apenas falei. Marina foi muito além. Marina  falou e disse.

 

O autor é professor de redação, membro da Academia Bauruense de Letras.

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