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Do fundo da gaveta

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Dia desses, a editora Gisele Hilário postou uma foto de antigos crachás achados no fundo da gaveta, da mesa de redação. Além de contarem uma trajetória vitoriosa, desde os tempos de repórter por onde a maioria começa, essas redescobertas são projeções de nós mesmos. Velhos papéis guardados e livros antigos são ecos de pensamento, fantasmas que se movem na lembrança, figuras feitas de ar e imaginação. Pelo menos é o que sinto, toda vez que tenho que dar fim nos arquivos por falta absoluta de espaço e pressões domésticas.  A cadeira giratória de assento desgastado pelo roçar dos fundilhos, lembra a sábia definição de Sinclair Lewis sobre o ato de escrever: é a arte de sentar numa cadeira. De repente, as coisas se encaixam em sacos de plástico preto, paga-se o carreteiro e o homem injustamente chamado de burro-sem-rabo leva parte da minha pobre existência para algum descarte ecológico. Pelo menos assim espero.

Ao desempoeirar os livros da estante, notei que há muito já não me utilizo do Larousse e da Britannica, enciclopédias que sempre me salvaram do deserto da ignorância. Com o Google o acesso à informação ficou mais rápido. Ainda não é a ferramenta de busca perfeita, que entende perfeitamente o que se deseja. Recebemos pedaços de informação. Parece que o pessoal do Google nem está interessado que o usuário pense em profundidade. Ao fazê-lo pular de link em link, o Google, na verdade, quer transformar informação em mercadoria. Coleta migalhas de dados sobre o seu comportamento, traçando o seu perfil para usar na publicidade. Estamos sendo suplantados pelos sistemas e ainda ficamos ressentidos por ter que nos livrar de arquivos materiais, por saudosismo.

Sou um leitor compulsivo, tenho computador, iPhone, iBook com centenas de livro baixados, mas continuo apaixonado por livros de papel. Quando quero ler um romance, quero tocar, cheirar e riscar a folha impressa. Para me atualizar com o noticiário prefiro o velho jornal e os artigos aprofundando análises sobre o momento político, econômico, científico, cultural e esportivo. Mas também não sou ranzinza com as novas tecnologias da informação. Sugestiva a passagem de Fedro, de Platão, em que Sócrates lamenta o desenvolvimento da escrita. Ele temia que as pessoas, se passassem a confiar na palavra escrita deixariam de exercitar a memória. O filósofo grego nunca escreveu um livro. Sob influência dessa fobia à escrita, 80% do pensamento helenístico se perdeu. Seus discípulos Platão e Aristóteles é que trataram de passar para a eternidade parte do pensamento do mestre, ao reproduzir os seus diálogos. Sócrates criou a maiêutica, método de ensino mediante uma sucessão de perguntas. Dessa forma induzia os interlocutores na descoberta das suas próprias verdades, como se fossem paridas no curso do diálogo.  Os sábios também têm seus momentos obnubilados. Muitos deles não perceberam que a escrita e a leitura levariam à expansão do conhecimento e ao desenvolvimento de novas ideias.

Quando surgiu o relógio, a partir do século 14, acharam que o tempo medido mataria o “homem espírito”, para transformá-lo numa máquina de sequências matematicamente medidas. O surgimento da imprensa no século 15 também fomentou a ideia de que a mente humana seria bombardeada de informação e que o homem se tornaria mais preguiçoso intelectualmente. De fato aconteceu, em certa medida. Mas, o livro também fez surgir o chamado “século de ouro da sabedoria universal”. O neurocientista Gary Small, em recente artigo (li no Google) reconhece que a tecnologia pode acelerar o processo de aprendizagem. O lado negativo é que há pessoas viciadas em internet, entre eles os googledependentes. A consequência principal, para o cientista é que se ampliam os diagnósticos do chamado déficit de atenção. Quem é professor sabe o que isto significa. Difícil prender a atenção dos alunos por mais do que dez minutos, que é o timing da tevê, com as interrupções para os comerciais. Numa aula de 50 minutos o professor tem que contar piadas a cada dez minutos, inventar um diálogo com alguém da primeira da fila ou praticar malabares em cima da mesa, para atrair a atenção.

A maleabilidade é própria da dinâmica do cérebro humano no processo evolutivo. Certamente, ele mesmo encontrará soluções para essa ameaça potencial à redução da capacidade de concentração, reflexão e contemplação. Nós, de gerações passadas, ainda conseguimos nos inspirar em papeis amarelecidos e que também devem fazer as delícias de traças e ácaros.

O autor é jornalista e articulista do JC

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