Ciências

A "Divina Comédia" nos aeroportos

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Reprodução
A sala de embarque dos aeroportos reproduz a vida urbana: reflitamos!

Pela primeira vez que estudei a síndrome de Riley-Day pensei: eis a solução para as dores de amor. As pessoas afetadas não sentem dor e nem produzem lágrimas, mesmo com agressões extremas como queimaduras e cortes profundos. Ela é hereditária autossômica recessiva por mutação em um gene no cromossomo 9.

Na hanseníase, a antiga lepra ou mal de Hansen, as bactérias se alojam nos nervos e periferia. O organismo reage contra estas bactérias e acaba por destruir os nervos da região que fica sem sensibilidade, inclusive à dor. Se a pessoa não se conscientizar e prevenir, os objetos quentes, perfurantes e dilacerantes podem destruir ou deformar partes do corpo.

Logo nos primeiros estudos percebi que as dores de amor não obedecem os mesmos mecanismos da dor física. A dor de amor vem da alma, daquilo incorporado em pensamentos e expressões que só o abstrato da neurociência tenta explicar. A angústia, a saudade, a renúncia e a impossibilidade de conseguir viver com a pessoa mais amada e admirada de seu mundo gera a dor de amor.

Remédios para a dor de amor são paliativos, diferentes dos dores físicas. O poeta é médico de alma que procura com seus versos e rimas embelezar essa tristeza com ornamentos de palavras carregadas de símbolos e até com canções melodiosas que nos remetem a viagens nas ondas coloridas e tortuosas de uma aurora boreal de paixão e sonhos.

Algum segredo certas famílias guardam a sete chaves: vacinam os filhos que aprendem a não sofrer de amor, ficam humanos práticos, egocêntricos e calculistas. Na minha carteira de vacinação não consta doses de vacinas contra o amor e paixão. Ela deveria ser obrigatória pois me faz sofrer muito e nos aeroportos agudece mais ainda. Nas horas de espera, desde menino, observo muito e tome reflexões e lembranças.

Que loucura!
Funcionários de aeroportos gritam estridentes e grosseiros como loucos descontrolados como em pleno orgasmo único anual. Tocam campainhas perfurantes no cérebro e imagino-me numa gaiola de laboratório como cobaia sendo analisado por um neurocientista!

As famílias fazem show de grosserias, tal como nos lares. Filhos gritam, xingam, dizem palavrões e desobedecem os pais na cara dura, na frente de todos como “reality show”. Casais, parentes e amigos discutem seus problemas em alto e bom som, sem se preocupar com a intimidade exposta. Alguns “casais” mal se olham, nem se tocam ou dialogam.

No celular gritam e falam de empregos, relações e “segredos”, tudo se escuta num show de variedades! A sala de embarque é um “big brother”! Embalagens de mãos, que loucura! Sacolas de plástico e papel abertas, malas entupidas e deformadas, com e sem alça, com conteúdo exposto: lá dentro se vê de tudo! Colocam em cima da cadeira ao lado, impede que o outro sente-se. Ninguém se importa com os outros, são meros expectadores da vida explicitada!

As roupas transparentes com texturas malucas revelam um show de tatuagens mal feitas com motivos em corpos de gosto duvidoso. Entre barrigas e umbigos variadas, só não têm as bonitas. Roupas íntimas com bolinhas, zebra ou oncinha! Cuecas, calcinhas e sutiãs expostos, algumas surradas, outras com desenhos e formas esdrúxulas. Camisetas e agasalhos amassados juntos com chinelos e sapatos que nem imagino onde foram fabricados. Algumas pessoas saem da cama e vão direto para o aeroporto com o aspecto horrível! Cabelos, unhas e o grau de higiene pessoal independe se obeso ou magro, branco ou negro, se homem ou mulher: é geral!

Seria falta de dinheiro? São roupas de grife, bolsas caras, celulares sofisticados e parecem ricos e escolarizados! E fui na rodoviária: surpreso, estava tudo mais aceitável! Seriam estas pessoas autênticas ou mal educadas? Livres de amarras ou livres demais onde o outro deveria ser respeitado? Exporiam demais a sua vida pessoal?

A vacina anti-amor e paixão talvez me fizesse compreender melhor este mundo egocêntrico em que se ignora o outro sem dó e medo. Fico preocupado, me sensibilizo com o marido ou esposa maltratado, com o pai desrespeitado, com a exposição da intimidade alheia. A maioria não está nem aí!

Esconderam a vacina de mim! Não compreendo este furor e dor, mau humor e horror, sem sabor e sem pudor: eu ainda prefiro o amor!

Observatório

Sem motorista! - Caminhão da Scania anda sem motorista pelo campus da USP São Carlos a 20km/h. Denis Wolf e equipe estudam veículos robóticos há anos e aperfeiçoam mecanismos como andar de forma segura e automatizada em chuva forte e neblina para ajudar os motoristas, como nos aviões. Ainda faz manter a distância dos motoristas à sua frente, evitando batidas. O automatismo evita os erros humanos. Salve!

Eis o café - Novos estudos comprovam que café não é apenas estimulante, mas ajuda a manter o cérebro saudável, protegendo-o contra a depressão, Alzheimer e Parkinson. Pesquisas estadunidenses em 250 adultos por 10 anos revelaram que o risco de depressão em tomadores de café é menor e foi publicado na revista PLoS One. O chá não se revelou protetor sob as mesmas condições quando comparado com o café.

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

Comunique-se por email: consolaro@uol.com.br

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