Bom dia! Em primeiro lugar quero aqui registrar toda indignação, revolta e principalmente o sentimento de impotência que se apoderou de mim ao ver a imagem daquele pequeno corpo debruçado sobre as areias de uma praia turca. Sei que tragédias semelhantes acontecem diariamente, nas sombras, ocultas das lentes dos fotógrafos. Mas tal imagem me impactou, sou pai, meu filho tem quase dois anos, idade próxima à da vítima.
Chorei pelo pequenino ali prostrado sem vida, chorei copiosamente, como se fora o meu filho ali, chorei por talvez não ter mais ninguém que chore por ele, pois seus pais devem ter tido o mesmo destino. Chorei acima de tudo pela vida que se interrompeu ainda tão prematura. Chorei por termos tantas riquezas desperdiçadas em futilidades, precisamos fazer a dieta das famosas, exibir a ostentação dos poderosos, parecer sempre felizes, estar no “padrão”, mas não damos mais valor a vida humana.
Chorei pois planejamos ir a Marte, encaminhamos uma sonda a Plutão, algo realmente relevante, mas perdemos a empatia, ignoramos a dor alheia, preferimos registrar a tragédia ao evitá-la (aqui abro um parêntese: refiro-me à sociedade e não ao jornalismo que tem com função primordial o registro e divulgação dos fatos).
Chorei pois não tenho o poder de fazer justiça, e quem o tem não a conhece, nem mesmo se importa. Ainda vejo a imagem, do rostinho contra a areia. Imagino seu desespero e dor, sim, não quero me esquecer, quero me importar, não quero imaginar que é só mais um número triste. Quero fazer alguma coisa, disse ontem mesmo para minha esposa, minha indignação é tamanha que vestiria feliz um uniforme e pegaria em armas para combater tal crueldade. Crueldade que tem motivado mães e pais a se lançarem ao mar em pequeninos botes com seus filhos, assumindo o risco da morte, para fugir do risco da morte.
Mas mais cruel que o autoproclamado Estado Islâmico que, diga-se de passagem, de Islâmico não tem nada, é uma sociedade fria e omissa, uma sociedade que olha para o outro lado, uma sociedade que não consegue ver o caminho de autodestruição que tomou.
Sim, o pequenino debruçado sobre a areia é um aviso, seu sangue cobrará de nós por justiça. Por quê? Ele diria: por que vocês não fizeram nada? “Tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens de bem nada façam”. Edmund Burke.