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Arquiteto fez 16 projetos em Jaú

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

O engenheiro e empresário Edson Tadeu Maróstica tinha 14 anos quando conheceu Vilanova Artigas, na obra da Estação Rodoviária da cidade de Jaú (47 quilômetros de Bauru). Ele trabalhava junto com o pai que fazia parte de uma das três equipes que executaram a obra. A convivência com o arquiteto determinou a escolha da profissão do então apontador.

“Eram três equipes, a de concreto coordenada pelo senhor Murijo. A parte de formas que era coordenada pelo Reinaldo Corsioli e meu pai João que fez toda a parte de ferragem da rodoviária. Ele conheceu Artigas e eu também, fui apontador da obra. Sempre que o Artigas estava aqui eu estava conversando com ele, conhecendo suas ideias. Ele uma pessoa amigável, extremamente aberto ao diálogo e muito inteligente.”

A visão de futuro era uma marca registrada do arquiteto, enfatiza Maróstica. “Ele era moderno. Se preocupava muito com o bem-estar do ser humano. Sonhava com obras desse porte. Abertas que tivessem ventilação, circulação. Que a pessoa que estivesse andando na calçada pudesse entrar e sair na rodoviária e no jardim sem ter tem bloqueios. Ele dizia que uma obra pública tinha que estar aberta e que fizesse parte do contexto onde ela fosse instalada.”

Artigas não gostava que as obras fossem fechadas. “As calçadas vão e voltam e os jardins se juntam. Há liberdade dentro da rodoviária de Jaú. Ele não admitia cancelas, obstáculos. Ele dizia que o ser humano era livre e tinha que andar por dentro da obra pública como se estivesse em casa. Ele gostava de concreto à vista. Grandes vãos, grandes balanços.”

Artigas foi um precursor do concreto protendido, lembra Maróstica. “Essa obra foi um desafio para as equipes que a executaram. Na década de 70 o Brasil não falava em concreto protendido e aqui temos vários pontos construído com ele. O concreto protendido foi usado nas vigas que são convencionais com armação. Esse tipo de concreto trabalha com bainhas de aço para protender. A armadura convencional não suportaria os vãos que existem aqui. Hoje, esse matéria é usado na construção de viadutos e pontes, mas naquela época não era comum.”

A novidade, o concreto protendido chegou de São Paulo pelas mãos de Artigas. “A técnica até então era usada só em outros países e estava começando no Brasil. Aqui em Jaú ninguém tinha visto esse material e nem tão pouco trabalhado com ele. Meu pai que trabalhava em grandes obras, pontes e edifícios, conheceu o concreto protendido na construção da rodoviária.”

O engenheiro explica que as lajes e os balanços da rodoviária foram construídas com vigas protendidas. “O Artigas sempre falava que quando se constrói uma obra tem que pensar no futuro. Que precisávamos construir obras bonitas que marcassem a vida não para a próxima geração, mas para muitas gerações.”


Arquiteto diz que obra não teve orçamento fechado

A construção da Estação Rodoviária de Jaú foi uma obra empírica, explica o arquiteto Ricardo Dalbó do patrimônio histórico da cidade. “O Tribunal de Contas exige que todas as obras sejam orçadas e que cada item tenha seu valor estimado. Na obra da estação, tudo foi empiricamente orçado. Teria um custo elevado e nem se sabia se o projeto seria cumprido. Não tinha máquinas e nem os materiais que temos hoje. As colunas, em forma de ramos de árvore foram construídas em madeira rígida, hoje são feitas em metal que é moldável. Coisa de artista mesmo.”

A tese é confirmada pelo engenheiro Edson Maróstica. “A execução das abóbodas foi um trabalho difícil. Nem o Artigas sabia se iria conseguir fazer. Ela é torcida, o Reinaldo Corsioli montou em madeira e avisaram o arquiteto. Ele chegou em um sábado pela manhã em Jaú e quando viu, se emocionou. Abraçou o Nardo (Reinaldo) e chorou dizendo que era isso mesmo que ele tinha sonhado. Foi muito emocionante.”

Tudo foi feito no serrote e na serra de bancada. “Era tudo em gravata de madeira. Para fazer uma abóboda dessa era montada uma estrutura de madeira que mais parecia um robô. Era cheia de concreto que vinha no carrinho direto da betoneira. Como as betoneiras ficavam lá embaixo tinha uma rampa de madeira por onde subia o girico (carrinho de mão com recipiente metálico curvo) e dois funcionários puxavam com uma corda. Não podemos esquecer que isso foi há 40 anos.”

Ricardo Dalbó enfatiza que a obra tem uma visão geral da cidade. “Do piso superior da Estação Rodoviária se tem uma visão da cidade como um todo. No corre-corre do dia a dia, as pessoas não observam a beleza da obra. Mas pessoas, especialmente estudantes de arquitetura chegam para visitar.”

Ele lembra que a rodoviária é um marco para a cidade. “Não só para a cidade, mas para o Brasil. O Artigas pertencia à Escola Paulista. É uma arquitetura modernista. Ela é referência no mundo todo. Eu já recebi arquiteto da Itália, alunos da USP, Unesp e os que vêm aqui espontaneamente”.


‘Artigas me inspirou’

O engenheiro e empresário Edson Tadeu Maróstica confessa que foi influenciado por Vilanova Artigas na escolha de sua profissão. “Conviver com ele era um aprendizado constante. Na hora de escolher a carreira optei por engenharia. Uso nas minhas obras, aquilo que vi ele fazer, concreto aparente, vãos, vigas e balanços que eu sempre gostei. Ele dizia que uma estrutura  não pode ser pesada, ela tem que voar como se fosse uma ave.”

Na opinião dele, quanto mais liberdade tivesse a obra, mais bonita ela seria. “Ele dizia que a estrutura tinha que ser leve. Ele tinha uma visão muito avançada para a época, um cara com uma inteligência brilhante. Aprendi muito com ele. Depois que me formei engenheiro passei a usar muito concreto armado. A diferença é que naquela época não tinha concreto usinado, não tinha bomba nem máquinas elétricas. O concreto era batido em betoneira. Foi uma lição de vida.”

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