O biólogo bauruense Mathias Mistretta Pires, 29 anos, vai receber no dia 10 de dezembro o Prêmio Capes de Teses 2015, na área de Biodiversidade. A divulgação do resultado aconteceu no final de agosto. O prêmio é dedicado a melhor tese de Doutorado do ano anterior em cada uma das 48 áreas do conhecimento com programas de pós-graduação no Brasil.
Formado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e com Mestrado em Ecologia pela mesma instituição, Pires defendeu o Doutorado no ano passado, também em Ecologia, desta vez na Universidade de São Paulo (USP). Sob a orientação do professor doutor Paulo Roberto Guimarães Júnior, o bauruense apresentou a tese ‘Redes Tróficas de Pleistoceno: Estrutura e Fragilidade’, no Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da USP.
A pesquisa teve como foco a extinção de espécies animais durante o pleistoceno, na última era glacial do planeta, há cerca de 10 mil anos. O foco do trabalho foi analisar como as interações entre as espécies foram determinantes para eventos de extinção. “O principal interesse era saber como essa interação entre as espécies poderiam modular processos de extinção. O período analisado foi de grandes mudanças climáticas, e ao mesmo tempo, a espécie humana começava a sair da África e se espalhar pelo globo”, comenta Pires.
Entre as espécies extintas na época, estão mamutes, mastodontes e tatus gigantes. “É importante salientar que, na escala de tempo do planeta, 10 mil anos é um período bastante curto”, frisa o pesquisador, que usou métodos matemáticos para reconstruir e entender o funcionamento dessas comunidades. Pires usou ainda, como parâmetro de comparação, a África atual, pois trata-se do único continente do planeta onde ainda existem grandes animais. Já as regiões estudadas diretamente pela pesquisa foram a América do Norte e a América do Sul.
O homem
No período estudado, já havia a presença humana no planeta Terra, e isso foi levado em conta. “O efeito da inserção do homem foi muito maior no passado. E isso gerou efeitos indiretos no equilíbrio desses sistemas. Uma das possíveis consequências é que essas comunidades ficaram mais suscetíveis a influências do clima, e os efeitos se propagaram justamente por meio das interações entre as espécies”, aponta.
“A extinção desses grandes mamíferos aconteceu em um momento de mudanças climáticas. Além disso, foi durante esse período que os humanos colonizaram outros continentes e as populações humanas expandiram em densidade. Portanto, entender essas extinções do passado e como as interações ecológicas influenciam eventos de extinção pode nos ajudar a compreender o momento atual, onde as atividades humanas e mudanças no clima podem ser responsáveis pela extinção de muitas espécies”, cita Pires.
Somente na América do Sul, 80% da diversidade de mamíferos com mais de 10 quilos foi perdida entre 15 mil e 10 mil anos atrás, ou seja, em um período bastante curto.
Vegetais
A pesquisa que será premiada pela Capes (órgão do Ministério da Educação para o fomento da pesquisa em pós-graduação) abordou ainda o impacto das extinções animais nas espécies vegetais. “Uma parte da pesquisa foi entender a consequência da perda dos grandes animais para outros processos. Um deles é a dispersão de sementes. Os animais grandes consumiam frutos grandes, e essa reconstrução da interação, com a perda das espécies animais, gerou um déficit de dispersores de sementes de grande porte”, revela.
“Não dá para dizer que houve extinção de plantas maiores porque no caso dos vegetais o processo é mais lento, porém sugerimos que a distribuição no espaço pode ter mudado, com propensão às plantas menores tornarem-se mais abundantes”, menciona.
Desde criança
Mathias Pires é filho do diretor do Zoológico de Bauru, Luiz Pires, e de Tânia Pires, e neto do casal Helena e Luciano Dias Pires, que é memorialista e editor do Jornal Bauru Ilustrado, suplemento mensal do JC.
Com o DNA na natureza, trilhar pelas ciências biológicas foi caminho natural. “Quando eu nasci, meu pai já era diretor do Zoo, e eu ia muito lá e no Jardim Botânico, já me interessava muito por essa área, foi bastante natural seguir esse caminho. Na verdade nunca pensei em seguir outra carreira”, afirma Mathias.
Ele cursou até o ensino médio em Bauru, e depois foi para Campinas para estudar Ciências Biológicas na Unicamp, onde se formou em 2007. “Logo na graduação já me interessei pela pesquisa, acabei fazendo duas iniciações científicas. Quando terminei a faculdade já prestei o Mestrado e depois fui para o Doutorado. Meu interesse é seguir na pesquisa. Agora estou no programa de Pós-Doutorado na USP, também na área de Ecologia, desta vez estudando a evolução dos mamíferos em uma escala de tempo bem maior, que são 50 milhões de anos”, explica.
Diretor do Zoo de Bauru, o pai Luiz Pires lembra que Mathias ia ao local todo fim de semana. “Na época em que o Mathias era criança, o Zoo e o Jardim Botânico eram juntos, ainda não tinha essa separação, e ele adorava vir e passar o dia aqui. A gente procura não influenciar e deixar que os filhos sigam suas carreiras, mas ele sempre gostou muito dessa área e foi natural seguir para esse ramo”, diz Luiz. “E para a gente é um orgulho ver ele sendo premiado por um trabalho acadêmico, ainda mais com este assunto, de extinção de espécies. Não é exatamente o que a gente faz no Zoológico, que são as espécies atuais e em cativeiro, mas acaba tendo ligação, pois ele estudou o processo de extinção de animais antigos”, pontua.