Quando a família procura ajuda no Caps, no Conselho Tutelar ou mesmo no Ministério Público, a Justiça pode determinar, por meio de mandado de busca e apreensão, o tratamento compulsório de jovens dependentes de álcool ou outras drogas. Quando há resistência do usuário, um oficial de Justiça - acompanhado da família, de um conselheiro tutelar e até mesmo da Polícia Militar - pode encaminhá-lo ao Caps.
“Não é algo tão incomum quanto parece. Pressionado pela ordem judicial e, muitas vezes, pela presença da polícia, ele acaba vindo. Depois, aos poucos, vamos conseguindo estabelecer um vínculo terapêutico e, quase sempre, o jovem aceita e começa a fazer o tratamento por vontade própria”, relata a coordenadora Josiane Fernandes Lozigia Carrapato.
Internação
Quando os sintomas do paciente são mais severos, já com a presença de transtornos psicóticos, há necessidade de internação, principalmente, para impedir que o paciente fuja e nem mesmo inicie o tratamento. Nestes casos, depois de passar por atendimento médico, ele é encaminhado para Serviço de Atendimento Referência Álcool e Drogas (Sarad), no Hospital das Clínicas em Botucatu ou para o Centro de Atenção Integral à Saúde (Cais) Clemente Ferreira, em Lins, que possui ala específica para tratamento de dependência de substâncias psicoativas.
“Há vezes em que o paciente chega ao Caps todo sujo, extremamente magro. Aí, fornecemos alimentação, banho e medicação emergencial para encaminhá-lo até a unidade hospitalar”, completa, destacando que estes casos são exceção à regra. Até hoje, segundo Josiane, apenas nove usuários precisaram ser internados devido à dependência, sendo cinco homens e quatro mulheres. Do total, seis eram dependentes de crack.
Risco maior para adolescentes
Segundo o psiquiatra Sérgio Sato, médico do Caps AD que atendeu muitos adolescentes antes da existência do Caps AD-3, como ainda estão com valores morais em formação, os jovens são bastante vulneráveis à pressão social e à influência até da própria família para que comecem a beber. “Muitas vezes, o exemplo vem de dentro de casa. E, entre os amigos, este adolescente tem a necessidade de se sentir inserido no grupo. Quem não bebe ou usa drogas acaba não sendo bem visto”, comenta.
Também por estar vivendo esta transição entre infância e fase adulta, o jovem é quase sempre inábil para fazer uso de bebidas alcoólicas. Além de não conhecer os limites do próprio corpo, possui um organismo ainda inadaptado à presença do álcool e, por este motivo, os efeitos da substância tendem a ser ainda mais intensos.
“Neste contexto, as chances de ele se colocar em situações de risco são muito maiores”, completa o psiquiatra, destacando que, cada vez mais, a proporção de meninas que fazem uso abusivo de álcool está se aproximando à de homens.
Ainda de acordo com Sato, além da associação de álcool e maconha, outras combinações bastante comuns entre usuários jovens são a mistura de álcool e cocaína e de maconha com crack, chamado de mesclado.
‘Fiquei sem rumo’
Uma das pacientes do Caps AD-3 é uma adolescente de 17 anos, que conta ter tido o primeiro contato com as drogas aos 14 anos. Inicialmente, experimentou maconha, depois cocaína, lança-perfume e LSD.
“Eu usava para esquecer dos problemas, principalmente de convívio familiar. Aí fiquei em um mundo sem rumo, sem saída. Fiquei três anos sem frequentar a escola. Até que decidi buscar ajuda”, comenta.
A jovem iniciou o tratamento em março do ano passado, ainda no Caps AD, que hoje atende exclusivamente pacientes acima de 18 anos. Quando o Caps AD-3 foi inaugurado, em setembro, migrou para o novo serviço.
Neste período, contudo, a adolescente não conseguiu evitar algumas recaídas e precisou, inclusive, ser internada no mês passado. Mas, desde então, ela garante estar livre do vício. “Já tinha voltado para a escola no início do ano e continuo frequentando as aulas. Hoje, só continuo dependente do cigarro. Entendi que drogas não me fazem bem e que minha vida é muito melhor agora”, comenta ela, que já faz planos para o futuro.
“Meu sonho é ser fotógrafa. Mas, por enquanto, quero continuar estudando para ter um bom serviço e dar uma vida melhor para a minha família”, projeta.