| Alex Mita |
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| Técnicos da empresa testaram o elevador da OAB nesta quinta |
Os elevadores requerem atenção para utilizá-los e instalá-los. A preocupação vem à tona após a morte de Maria da Silva, 85 anos, que foi “prensada” entre o chão e a plataforma elevatória da 21.ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Bauru, anteontem à tarde. Esse tipo específico de equipamento exige uma série de pré-requisitos, conforme regulamentação da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
É o que explica o gerente da Divisão de Acessibilidade de uma multinacional alemã que fabrica elevadores, Rafael Villar. Segundo ele, ler as etiquetas que estão fora e dentro de qualquer tipo de elevador, além de verificar se ele está no andar são os passos essenciais que os usuários têm de seguir. “Deve haver atenção no que se está fazendo”, aconselha.
Em relação à instalação propriamente dita, Villar adianta que, atualmente, há três tipos de equipamentos e um deles corresponde à plataforma elevatória vertical, como a que foi implantada na sede da OAB de Bauru, e está regulamentado pela norma ABNT NBR ISO/9386-1, datada de dezembro de 2013.
Villar argumenta que o item é destinado para transportar pessoas de mobilidade reduzida, tais como idosos e cadeirantes, até uma altura de quatro metros, ou seja, dois andares. Entre as principais características do equipamento, estão a velocidade máxima de 9 metros por minuto; a capacidade de abrigar apenas o usuário, que pode ser cadeirante, e o acompanhante; e os botões de pressão constante (a plataforma só sai do lugar se a pessoa ficar apertando o item).
Sobre o caso que envolve a OAB de Bauru, o gerente pontua que há dois pontos que não estão esclarecidos. “Se o produto é uma plataforma elevatória, ele só poderia se mover ao pressionar os botões internos e externos. Não existe aquela função automática dos elevadores comuns. E outro ponto é o motivo de a porta ter aberto antes que a plataforma estivesse no andar”, raciocina.
Já a outra modalidade de equipamento é o elevador automático de uso restrito, que também é direcionado às pessoas de mobilidade reduzida. Todavia, há diferenças em relação à plataforma. “São produtos utilizados até uma altura de 12 metros, ou melhor, de quatro a cinco andares”, revela. Esse elevador tem capacidade para três passageiros ou um cadeirante e o acompanhante e a velocidade máxima não deve ultrapassar os 21 metros por minuto.
Da mesma forma que o elevador convencional - aquele que está presente em residenciais -, o de uso restrito possui botões automáticos, mas a diferença entre ambos é que o primeiro possui velocidade máxima entre 30 e 360 metros por minuto, dependendo da altura do prédio. “Outro ponto que os diferencia é que o elevador comum pode ser usado por qualquer pessoa, mas o de uso restrito é destinado apenas àquelas que têm a mobilidade reduzida”, esclarece.
Etiquetas e avisos
Há uma série de etiquetas que têm de estar presentes nas partes internas e externas de qualquer tipo de elevador, conforme orienta Rafael Villar. Contudo, no caso da plataforma elevatória, são necessários adesivos acerca da capacidade, da instrução de uso, do sistema de emergência e daquele famoso logotipo da acessibilidade, da mesma forma do que as vagas especiais de estacionamento.
Villar defende que, quando a plataforma elevatória atende a uma altura de dois metros, a norma não exige o sistema de fechamento ao redor, mas obriga a ter segurança contra obstrução. “Quando a plataforma elevatória passa de dois metros, ela é obrigada a ter fechamento ao redor, mas não é necessário o sensor, porque não há como o usuário entrar por baixo. No caso da OAB, as usuárias só entraram após alguma anomalia da porta inferior”, diz.
Dois dias de luto
A sede da 21.ª Subseção da OAB de Bauru, localizada na Vila Universitária, amanheceu sob um decreto de dois dias de luto, em razão da morte de Maria da Silva. Ontem pela manhã, cartazes foram pregados em diversos pontos do prédio, indicando condolências aos familiares da vítima.
O presidente da entidade, Alessandro Biem Cunha Carvalho, afirma que esteve com a sobrevivente Priscila da Silva Lima (neta da vítima fatal) para prestar apoio.
Ele ainda revelou que se surpreendeu diante do acidente. “É um elevador novo e com sistema moderno e me causa estranheza essa falha. Vamos aguardar o laudo para entender o que houve”, frisa.
Triste ironia: aposentada que morreu ‘prensada’ temia queda em escadas
Maria da Silva, morta após ser “prensada” entre o chão e a plataforma elevatória vertical da 21.ª Subseção da OAB de Bauru, anteontem à tarde, temia se machucar ao fazer uso de escadas. “Ela tinha medo de cair por causa da idade avançada e da debilidade física”, revelou a neta Aline da Silva Lima, 31 anos, durante o velório, que ocorreu na Capela Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, no Parque Real.
Quando houve o acidente, Maria estava com a neta Priscila da Silva Lima, 34 anos, que sofreu luxações nas pernas, mas passa bem. Em entrevista ao JC, Priscila contou que uma atendente da OAB de Bauru perguntou se elas poderiam ter acesso ao primeiro e único andar do prédio através das escadas, mas ela optou pelo elevador, por conta das limitações da aposentada.
Religiosa e apegada à família, Maria morreu sem conseguir pagar a promessa de visitar a cidade de Aparecida do Norte, caso a aposentadoria saísse. “Ela era doméstica, mas, naquela época, era difícil ter registro em carteira e, então, entrou na Justiça e prometeu cumprir a promessa quando conseguisse se aposentar. Ela teve o direito conquistado de forma retroativa, mas o advogado não liberou os R$ 20 mil, fato que a levou à OAB”, explica Aline.
Inclusive, sem ter acesso ao benefício, a idosa não tinha condições de arcar os custos da viagem ao município. “Ela chegou a dizer para alguém da família pagar a promessa, caso não pudesse. Agora não sei como vai ser”, lamenta a neta. Além disso, Aline acrescenta que a avó era devota de Nossa Senhora Aparecida e dizia que tinha tudo o que precisava por perto: a família.
“Minha avó estava feliz. Ela completou 85 anos no dia 1 de agosto, mesma data do aniversário de Bauru, e fizemos uma festa para comemorar com toda família”, narra. Sobre a fatalidade, Aline espera Justiça. “Os responsáveis devem ser punidos, mas nada vai trazer minha avó de volta”.
Maria da Silva foi sepultada ontem, às 15h, no Cemitério do Ypê.
Técnicos testam o equipamento: elevador de 210 kg desceu em 25s
25 segundos. Esse foi o tempo que a plataforma elevatória vertical da OAB de Bauru demorou a descer do piso superior até o térreo e, pesando 210 quilos, atingir Maria da Silva e a neta Priscila da Silva Lima, anteontem à tarde.
Ontem, técnicos da empresa Gromos, de Limeira, responsável por instalar a plataforma e peritos da Polícia Científica testaram o equipamento diversas vezes, com o objetivo de descobrir as causas do acidente, uma vez que as vítimas tiveram acesso à plataforma quando a cabine ainda estava no piso superior e a porta de acesso do térreo deveria, de fato, estar travada.
O JC apurou hipóteses preliminares do que teria provocado a falha. Uma das suspeitas é que, da penúltima vez em que a plataforma foi usada, a porta teria ficado com uma pequena abertura de três milímetros. O defeito, contudo, não alterou o funcionamento do sistema. Caso contrário, a pessoa que utilizou a plataforma antes das vítimas não teria conseguido subir até o piso superior.
Na sequência, a idosa e a neta acionaram, do lado de fora, o botão que “chama” a plataforma. O sistema demora de cinco a dez segundos para reconhecer o comando e, nesse meio tempo, as duas conseguiram entrar, já que a porta é de puxar. A trava, dessa vez, funcionou, mas, quando as vítimas se deram conta da situação, já estavam “presas” e a plataforma, em movimento.
As vítimas gritaram por socorro. Um funcionário da OAB e outro homem que estavam próximos chegaram em torno de um minuto, ou seja, o elevador já havia completado o trajeto até o térreo, que dura 25 segundos. Eles conseguiram quebrar a porta de acrílico.
O advogado da Gromos, Daniel Massaro Simonetti disse que a empresa só irá se pronunciar após o resultado do laudo, que deverá sair dentro de 30 dias. “É o primeiro acidente registrado com os nossos equipamentos. Lamentamos o ocorrido e garantimos que estão sendo verificadas as causas. Juntamente à OAB, estamos dando todo suporte às vítimas”, finaliza.
Inquérito
O caso da morte de Maria da Silva chegou às mãos do delegado Ismael Cavallieri, que já instaurou inquérito policial. A partir de agora, ele ouvirá a neta que estava junto à avó durante o acidente, o funcionário da OAB de Bauru que as socorreu, os responsáveis pela empresa que forneceu o equipamento e aqueles que cuidam da manutenção da plataforma.
O delegado ainda aguarda o laudo pericial, que deverá chegar dentro de um mês. Além disso, o JC apurou que a idosa teria morrido em decorrência de uma espécie de hemorragia na região do tórax, provocada, possivelmente, pelo impacto da plataforma de 210 quilos. O laudo necroscópico, que confirmará essa informação, deverá ficar pronto ainda hoje.
Outro ponto a ser avaliado, segundo Cavallieri, será o alvará de funcionamento do prédio. Normalmente, o documento é emitido pela Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) após vistoria do Corpo de Bombeiros. Conforme informações da assessoria da prefeitura, a pasta está levantando se a licença está em dia e deverá divulgar essa informação ainda hoje.
