O papa Francisco é o maior comunicador do nosso tempo. Não há palavras inúteis em sua oratória de encaixes perfeitos. Ele junta precisão e naturalidade com leveza. E impressiona, ainda, o fato de falar tanto e, até agora, não ter dito uma grande besteira. Perto dele, o ótimo orador Obama é um garoto tímido.
Digo isso com total tranquilidade: preconceito não existe no meu dicionário. Observo com interesse liberto a movimentação de católicos, evangélicos, espíritas, budistas, etc. Socialmente não praticamente, tenho minha fé íntima em base serena.
O elogio ao papa nada tem a ver com a epiderme religiosa em si. Minha admiração é pela sua rica capacidade de comunicar com firmeza, humor, conectividade e senso de justiça.
Astuto e atento, sobre os ateus, já disse estar “convencido de que não tenho direito de fazer juízo sobre sua honestidade”. Aos que creem, bem lembrou que “Deus não pertence a povo algum”. Aos jovens, já inflamados por natureza, jogou lenha na fogueira: “Sejam revolucionários!”
Sabedor de que “comunicação pela metade faz mal”, Francisco também parece lúdico em relação à própria sua fama planetária.
À rádio Renascença, de Portugal, avaliou: “Muitas vezes, me pergunto como será a minha cruz, como é a minha cruz. As cruzes existem, não as vemos, mas existem. Também Jesus foi popular em um certo momento e terminou como terminou. Para ninguém está garantida a felicidade mundana”.
Parece, de fato, interessar mais a Francisco falar diretamente ao resto de essência ainda pura que habita em todos nós. “Cuidemos do nosso coração porque é de lá que sai o que é bom e ruim, o que constrói e destrói”. Frase bem adequada para hoje, Dia Mundial do Coração.
Em tempo: o JC mostrou ontem que o papa lançará em novembro um álbum de rock. Na verdade, são discursos de Francisco junto a som progressivo e canto gregoriano. Ele não canta, declama. A música de trabalho, digamos assim, é facilmente achada na Internet: “Wake Up! Go! Go! Forward”. E é por aí: mais ou menos como no título da canção, acordemos e sigamos. Porque o domingo chama e o coração está em paz.
O autor é editor executivo do JC