Em uma tarde de céu azul, do jeitinho que Célia Martins adora, ela recebeu a reportagem do Jornal da Cidade para um bate-papo com café, suco e biscoitos.
Entre uma mordiscada e outra, falou sorrindo sobre paixões: a família e as amigas, viajar e escrever versos, poesias, trovas, contos...
Em comum, seus escritos e pensamentos trazem suas memórias de vida e viagem, flores, dias de sol, borboletas e muitas cores, principalmente, o azul do céu.
“Minha poesia reflete o encantamento que tenho pela natureza, uma forma de agradecimento por toda a existência”, disse.
“Escrevo desde mocinha! Minha avó paterna gostava muito de poesia e assim fui aprendendo”.
Há dois anos, quando comemorou seus 90, familiares e amigos editaram, de surpresa, um livro com parte dos seus poemas, contos e pensamentos.
A publicação não está na livraria, foi presente para os convidados e se tornou uma relíquia de belas palavras. Algumas, o JC compartilha com seus leitores.
Vida feliz
Atualmente aos 92 anos, com boa memória o bastante para recitar versos “de cabeça”, dona Celinha, como é carinhosamente chamada por todos, não esqueceu de outra atividade que exerceu com muito amor: o serviço social.
Bauruense, formou-se assistente social na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e foi uma das pioneiras a lecionar na sua área na Instituição Toledo de Ensino (ITE).
Aposentou-se como assistente social do Instituto Nacional do Seguro Social e com as colegas deste trabalho mantém, desde 1998, um grupo que se reúne mensalmente para passeios ou jantares e se conversa quase todos os dias.
Quando questionada sobre o segredo de tanta vitalidade, responde sem pestanejar: “ora, se é segredo, eu não sei!”. Ainda rindo da brincadeira, garante que sua “receita” inclui as amizades e o amor, o apoio e os cuidados que recebe da irmã e sobrinhas.”Tive uma vida muito feliz - e ainda tenho! Também porque tenho amigas muito boas”.
Primavera
Céu azul, pássaros voando
flores de tantas cores!
É a primavera chegando
Bem-vinda estação de amores!
Criação
Quando planto uma flor
Sinto nela, Senhor,
Meu amor, vosso amor.
Puseste na semente pequenina
A grandeza da vida.
Eu planto e aos meus cuidados ela cresce
E cobre-se de flores.
Quando admiro as flores que plantei
Humilde eu agradeço a permissão
De partilhar de vossa criação,
Quando planto uma flor.
Trem
No passado foi a luta!
E nos trilhos corre o trem.
Estranha trama fajuta,
Destrói agora esse bem!
Quantas saudades, meu Deus!
Do apito me lembro bem,
Quando chegava e no adeus,
O que fizeram do trem?!
“O bosque com seu verdor,
marca o céu azul profundo,
fascinada, ergo louvor
ao grande Artista do mundo”.
“Aquele que vê espinho,
mais do que rosa se esquece,
é vazio do carinho
que a beleza engrandece”.
Poeta e flor
Na fogueira da emoção
os poetas acham rimas,
artistas, inspiração.
E surgem as obras primas...
Querendo o mundo alegrar,
Deus juntou perfumes, cores,
e para o poeta sonhar,
sorrindo criou as flores...
Tal como as flores pequenas
expressam beleza e cor,
com quatro versos apenas
a trova fala de amor.
Outono, folha no chão
e flores caem também,
mas depois outras virão,
é a vida no vai e vem.
Tem a vida certo encanto
que só o poeta percebe:
é som, é cor, é acalanto
que sequer outro concebe.
Plante semente de flor
E sua mão benfazeja,
Espalha beleza e amor
E a primavera festeja!