| Éder Azevedo/Arquivo |
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| Na semana retrasada, o apicultor Cirço retirou enxame de uma moto e até colocou insetos na boca |
Sete policiais militares e um homem detido durante uma operação ficaram feridos após serem atacados por abelhas em um matagal localizado próximo à favela São Manoel, em Bauru. Os PMs perseguiam dois rapazes a pé, quando, possivelmente, esbarraram em uma colmeia que abrigava cerca de 35 mil abelhas africanizadas. Ocorrências envolvendo esses insetos tendem a se tornar mais comuns nesta época (leia mais abaixo).
Feridos por dezenas de picadas, seis soldados e um cabo, além do preso, foram encaminhados ao Pronto-Socorro Central (PSC) por unidades de resgate do Corpo de Bombeiros e por viaturas da própria PM. Além deles, um número não divulgado de policiais recebeu uma quantidade menor de ferroadas e não precisou de atendimento médico.
Até o final da tarde dessa quarta-feira (30), os pacientes seguiam sob observação médica. Assim que recebesse alta, o suspeito seria encaminhado à Central de Polícia Judiciária (CPJ).
| Quioshi Goto |
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| Tenente Rafael Vaz, comandante da operação dessa quarta: “Quando percebemos, as abelhas já estavam por todo lado” |
O ataque foi registrado por volta das 15h, na quadra 1 da Comendador Daniel Pacífico, quando cerca de 30 homens da Força Tática, Radiopatrulha e da Escola de Soldados se preparavam para iniciar um bloqueio de trânsito. Neste momento, segundo o tenente Rafael Vaz, que comandava a operação, as equipes avistaram dois rapazes correndo em direção à linha férrea. “Eles entraram em um matagal ao lado da favela São Manoel, mas conseguimos abordá-los. Quando estávamos saindo, o enxame começou a nos atacar. Não sabemos de onde vieram as abelhas. Quando percebemos, elas já estavam por todo lado e alguns policiais foram bastante picados”, detalha.
‘Sorte’
Mesmo diante do susto e do tumulto, os PMs encaminharam os detidos até as viaturas e levaram um deles, também ferido pelas picadas, ao PSC. Até por volta das 18h, as vítimas ainda recebiam medicação intravenosa e aguardavam resultados de exames de sangue para que pudessem receber alta.
Segundo a unidade de saúde, nenhum dos pacientes corria risco de morte. “Por sorte, nenhum dos policiais era alérgico ao veneno das abelhas. Caso contrário, as consequências poderiam ter sido mais graves”, completa Vaz.
Com os suspeitos, as equipes encontraram porções de maconha. Até o final da noite, a ocorrência de tráfico não havia sido registrada na CPJ.
Após o ataque, a PM acionou o apicultor Cirço Domes de Araújo para retirar a colmeia do local, que tinha cerca de 1,2 metro de comprimento e estava em uma trama de cipós. “Possivelmente, os policiais ou os suspeitos bateram nesta ramada durante a perseguição”, acredita ele, que fez a remoção da colmeia ainda ontem. Segundo o apicultor, as abelhas foram levadas para uma região de mata, onde o risco de novos ataques é remoto.
Insetos migram e exigem trabalho redobrado de bombeiros e apicultores
O caso dessa quarta (30) não deve ser tratado como algo pontual. O número de colônias de abelhas aumenta com a chegada da primavera, época de maior concentração de néctar nas flores. O período, somado ao desmatamento, provoca a migração do inseto para áreas urbanas e a intervenção do Corpo de Bombeiros ou de apicultores torna-se inevitável. Mesmo antes da estação das flores, o pico de ocorrências atendidas pela corporação em Bauru cresceu de uma média mensal de dez para 19 no mês de agosto.
Apesar dessas ocorrências efetivamente atendidas, a demanda é bem maior. “Recebemos muitas ligações. Mas nem todas viram ocorrências dos bombeiros. Quando são lugares com grande aglomeração de pessoas como escolas e creches, fazemos a intervenção. Nestes casos, levamos os insetos para áreas afastadas da cidade. Em outras situações, recorremos a apicultores credenciados aos órgãos ambientais”, detalha o tenente dos bombeiros Eduardo de Souza Costa.
O biólogo, professor do Departamento de Biologia e pesquisador do Centro de Estudos de Insetos Sociais do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro, Osmar Malaspina, explica que, no período que precede a primavera e, principalmente, durante a estação, quando se encontra néctar em abundância, a colônia de abelhas cresce consideravelmente. “É a época em que elas mais procriam. Temperaturas elevadas contribuem bastante”, pontua.
Com o aumento da prole, as abelhas se espalham. “Elas ‘soltam’ o enxame, ou seja, se dispersam, fator que chamamos de migração. Na floresta, procuram por lugares fechados e se protegem da chuva sob galhos de árvores. Com o desmatamento cada vez mais constante, acabam migrando para áreas urbanas, pois as cidades oferecem bons abrigos, como casas e construções”, exemplifica.
Riscos
Malaspina orienta para que a população jamais tente retirar um enxame. “O certo é chamar um especialista e isolar a área. Com apenas uma ferroada, uma pessoa alérgica tem fechamento da garganta e pode morrer. Quem não é alérgico, dependendo da quantidade de ferroadas, sofre intensa intoxicação. Os efeitos variam muito de um para o outro, conforme o organismo da pessoa. Vi jovens resistirem a 300 ferroadas, enquanto crianças e idosos, a 100”.
Na moto
Bastante procurado pela população bauruense, o apicultor Cirço Domes de Araújo, 53 anos, foi quem atuou no caso de ontem. Ele conta que recebe em torno de dez ligações por dia. Na semana retrasada, retirou um enxame de abelhas africanizadas de um local bastante inusitado: entre o motor e a roda traseira de uma moto, na quadra 21 da rua Gustavo Maciel, Altos da Cidade. “Não tem uma regra. Elas encontraram, ali, um local seguro para se instalarem”, observa.
O mais impressionante é que o apicultor não usou proteção contra as possíveis ferroadas. Ele explica que os insetos estavam em processo de migração, o que os torna, de certa forma, vulneráveis e pouco ofensivos. “É o que chamamos de abelhas viajantes. Tinham acabado de pousar. Estavam bem alimentadas e muito cansadas. Outra coisa: a abelha rainha ainda não havia ‘tomado posse’ do local”.
Sendo assim, foi possível manusear o enxame sem correr risco de ataque. “Usei um galho de árvore para espalhar as operárias e localizar a abelha rainha. Ela se difere das demais, pois é comprida, fina e quatro vezes maior que as outras. Ela e o zangão são os únicos que não têm ferrão e, por isso, consegui pegá-la com a mão”, explica.
A abelha rainha serve para atrair as operárias. “Após colocá-la na caixa de papelão, as operárias vêm junto. Depois de retirar o enxame, ou as solto em área de mata aberta, longe da cidade, ou as entrego para apiários”, revela Cirço, reforçando sobre os perigos. “Elas são agressivas e só alguém com experiência pode fazer a remoção”.
Na semana passada, uma moradora do Bela Vista, que preferiu não se identificar, entrou em contato com Cirço para pedir a retirada de uma colmeia que permanece, há alguns anos, no imóvel vizinho, que está abandonado. “As abelhas estão alvoroçadas e meu filho, de 3 anos, brinca direto no quintal. Ele já foi picado e eu também. Tenho medo de acontecer algo mais grave”, relatou a secretária, que aguardava a visita do apicultor.
Cirço atende ocorrências envolvendo abelhas pelo telefone (14) 99686-8180.
Misturadas
O enxame que atacou os policiais e o suspeito ontem foi de abelhas africanizadas. O especialista Osmar Malaspina revela que ela é resultado do cruzamento entre as abelhas africanas e as europeias. “Em 1956, o que predominava no Brasil eram as abelhas europas, trazidas da Itália por padres que queriam usar o mel para fazer velas”, explica.
No entanto, a espécie produzia pouco mel. “Foi quando um professor, aqui de Rio Claro, visitou a África e trouxe 40 abelhas rainhas. O cruzamento delas com as europas resultou na abelha africanizada, que produz quantidade maior de mel e são um pouco mais agressivas”, pontuou.

