Articulistas

Mortes necessárias

Alexandre Albertini Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

De repente acontece. Atestado o óbito e, em respeito aos procedimentos funerais, vela-se o falecido, para posterior sepultamento, acenando à saudade autorização para permanência. Intrigante e temerária, desperta racionais e emotivas análises. Vista como perda, viagem, fonte inspiradora é de filósofos, poetas e músicos. A Última Porta, a Indesejada das Gentes, a Morte. É pau, é pedra, ainda assim, luto pelo luto desconhecer o fim do caminho. Por isto, procuro, na sabedoria metafórica do escritor Rubem Alves, lúcido raciocínio. E encontro, ao afirmar serem os mortos necessários, entretanto, necessário enterrá-los para recriar a vida.


“Mortos necessários”? Reflexão necessária. Poética, as interpretações pedem passagem. Seriam os mortos os nossos erros, os nossos passados? Se o são, visita o pensamento a adaptação redacional: O passado  é  necessário, entretanto  precisamos enterrá-lo  para  que  possamos  recriar  a  vida. Exatamente. O incômodo desta análise  reside no tratamento dado  aos mortos, ou melhor, ao passado. Inesperado clarão, visita-nos como um relâmpago, permitindo consultar determinadas imagens, no momento de particular reconhecimento. Rigoroso arqueiro, desconhece retorno da flecha viajante. Pontual relógio, ignora o minuto reverso. Apreciador  temporal, contabiliza o expediente semanal.


Curiosa vontade esta de viver por atacado ao passado, em contraposição pelo varejo do presente. Ensina-nos a sensatez a visualizar o pretérito como um trampolim, para realização dos sonhos, evitando-o como um sofá, capaz de acomodar confortáveis pretextos. Traímos o presente, afivelados  estamos  nas ocorrências  do ontem. Causas? A certeza de vivermos a era das incertezas fez do indivíduo um individualista. Ao eleger  o prazer  pessoal e narcisista como requisitos sociais, inamistosos ficamos.


Insuficiente a isto, a velocidade da convivência humana acelerou uma nova versão de relacionamento. Uma espécie de teleconvivência touch. Pouco tocante. Muito tocável. Socializar transformou-se em compartilhar, ainda que as cercas  do contato sejam acerca  das limitações. Desprovidos da disposição de ouvir, tornamo-nos. Pudera! Muita oratória para pouquíssima escutatória. O resultado? Enloucrescemos de enlouquecer, à espera pelo fim de um mundo, como este, diferente seja de ser o  fim do mundo.


Compreensível, portanto, sair da cena do presente para refugiar-se  à sombra do obediente passado. Lá, há fotos olfativas, sonoras. Lá, identificam-se os amores que deixamos e os que também  nos deixaram. Naquele  lugar, sente-se a  falta de quem partiu, sem poder, ao menos, despedir-nos. Reconhece-se, também lá, o amor fiel e principalmente silencioso de um coelho, com quem compartilhamos o afeto e a alegria na infância querida do meu filho Fernando. Apesar disto, rigorosa, a razão acusa-me da urgente necessidade de enterrar o passado. Fragilizada, a emoção, desesperadamente, adverte-me para o excesso de túmulos no cemitério do meu coração. De repente acontece.


O autor é professor universitário de Língua Portuguesa. alexandrebenegas@gmail.com

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