Articulistas

O protetor dos donos

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Há anos, tarde da noite, encontrei a casa com o portão meio aberto. Parecia ter sido forçado. Gilmar Dias, que me dera carona, entrou comigo e logo concluiu: “Teve visita aqui, mas Simba espantou”. Na época sem alarme, e com a família viajando, o jeito foi continuar contando com o cachorro, meu protetor. Passei a noite receoso, mas com o corajoso Simba por perto. Atento e barulhento, como bem sabem (e toleram) meus vizinhos.


Simba não tem raça definida, mas a personalidade é marcante: não faz média com ninguém. Se gosta, já quer esfregar seu pescoço no pé da pessoa e ali se enroscar. Se não topa muito, solta o gogó a latir. Não existe cerimônia canina, só ímpetos.


Ultimamente tivemos alguns conflitos: já com seus 10/11 anos, estou certo de que chegou à conclusão de que nós é que moramos com ele. A casa é dele, e isso inclui fazer o que bem entende em qualquer cômodo. Mas as coisas já vão se acalmando: afinal, Simba é merecedor de consideração. Viu o Gabriel crescer, espia a Laísla evoluir, vai bem com jovens e crianças, mas sem dar muita confiança. É grudado em mim, e eu sigo sendo mandado por ele, feito cachorrinho.


Como hoje é Dia Internacional dos Animais, Dia de São Francisco de Assis (protetor dos animais) e Dia Nacional do Cachorro, não poderia eu deixar passar a data sem fazer aqui meu agradecimento ao velho companheiro de médio porte.


“O Simba não tem jeito” talvez tenha sido a frase mais dita sobre ele até hoje, mas não nasceu mesmo para ter modos. Nossos cães também são nossos protetores quando a coisa aperta e, no fim das contas, esse é o jeito deles: zeladores por natureza.


Simba deve ter espantado mais invasores em sua canina trajetória de quintal e segue vivinho, atento e barulhento. Com olhar quase humano. Já sumiu, já voltou. Já surtou e se acalmou. E até já mordeu o dono, mas foi de leve, reduzindo a força na hora a fundura pontuda em minha mão direita. Não gostou do meu estilo de tosa no tanque e apenas reagiu. Está perdoado, e já faz tempo isso.


Pensando bem (e isso Simba não pode fazer) talvez tenha eu feito mais cachorradas com ele do que o contrário. Como quando, em Ourinhos, o imparável Simba correu algum risco de atropelamento. Tudo passado: o presente é menos aventureiro e mais precavido. E, sobre meus eventuais deslizes, também parece ter abanado o rabo às minhas desculpas. Talvez saiba que eu também não tenho jeito. Protetores como ele rosnam, mas perdoam.


O autor é editor executivo do JC

Comentários

Comentários