Política

Servidores temem riscos em UPAs e PSC

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

Aceituno Jr.
A UPA Bela Vista é uma das unidades cujos funcionários temem pelas reduções nas horas 

Motivada pelas restrições a horas extras na Prefeitura de Bauru, em decorrência do estouro nos gastos com pessoal, a redução das equipes que atuam nas unidades de urgência e emergência do município já coloca em xeque a qualidade dos atendimentos e cuidados destinados à população. O alerta é de um grupo de funcionários do setor de enfermagem, que não se sentem mais seguros em trabalhar diante do suposto desfalque de profissionais.

Há 20 anos como auxiliar de enfermagem da rede, Ana Maria Alves Benazio trabalha à noite no Pronto-Socorro e garante que a situação nunca foi tão complicada, mesmo antes da inauguração das UPAs, quando toda a demanda era concentrada na unidade do Centro. “Eu fico me perguntando: quem vai se responsabilizar caso alguma coisa grave aconteça?”.

Ela conta que, antes das restrições a horas extras, 14 auxiliares eram escalados por plantão. “Agora, ficamos em 10. Mas já teve dia que foram só oito. Nosso trabalho fica extremamente suscetível. Temos medo de cometer erros por conta da sobrecarga de trabalho. Quando falamos em saúde, lidamos com vidas. Não dá para errar. Eu fico preocupada até porque minha família também usa o sistema”.

Técnica de enfermagem na UPA Bela Vista, Milena Montanari Braz é taxativa ao dizer que, com a diminuição do número de funcionários, a população corre risco. Segundo a servidora, nesta semana saiu a liberação para que dois pacientes em estado delicado fossem submetidos a exames de tomografia durante a madrugada. Ambos, porém, tiveram que esperar amanhecer porque não havia profissionais disponíveis para acompanhá-los até o Hospital de Base (HB).

“As famílias não sabem o que acontece e cobram da gente, não do prefeito que prometeu que não mexeria na urgência e emergência, mas mexeu. Ficávamos em oito técnicos à noite. Agora, são cinco ou seis”, conta. Milena diz que a equipe médica foi preservada, mas desde o início da semana só um enfermeiro trabalha no plantão noturno. Antes, eram dois. “Alguns procedimentos só eles têm competência para fazer, inclusive a triagem. Como deixam só um?”, questiona.

IMPREVISÍVEIS

O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) disse anteontem que as horas e os plantões extras não estavam proibidos na rede de urgência e emergência. Contudo, confirmou o que chamou de “adequações” nas escalas, já que o movimento das unidades cairia drasticamente no período noturno.

Ana Benazio ressalta, no entanto, que a ponderação é muito relativa porque não há como prever casos de extrema urgência, como paradas cardíacas e acidentes. “Nós somos a porta de entrada para as vítimas das rodovias. O Pronto-Socorro, inclusive, é a referência não apenas para a cidade de Bauru, mas para municípios da região também, dependendo da complexidade do atendimento”.

A auxiliar de enfermagem relata ainda que, dependendo das cotas de internações nos hospitais, o número de pacientes nas unidades varia muito. “Ontem mesmo recebi o plantão com 10 pacientes aguardando leitos e entreguei com 28”.

As profissionais contam também que, por conta do déficit, um único servidores tem se responsabilizado por mais de um setor simultaneamente. “Isso é vedado pelo Coren [Conselho Regional de Enfermagem]”.

DESCANSO

Em entrevista nessa quarta-feira ao JC, Rodrigo disse ainda que, também no período noturno, alguns funcionários chegam a ficar ociosos. Ana Benazio rebate, reiterando que todos têm direito a uma hora de descanso, em meio às 12 horas seguidas de serviço.

No bolso e na qualidade

A técnica de enfermagem Milena Montari admite que as horas extras chegam a dobrar seu salário mensal, mas garante que os profissionais não estão mobilizados por esse motivo.

“Eu fazia cerca de seis plantões extras por mês. Agora, com o corte, tiraram da escala os servidores de fora da unidade e dividiram igualitariamente entre os lotados na UPA. Fiquei com dois. Só que já vou começar a trabalhar em um hospital para compensar. Não falta trabalho. O problema é a qualidade do atendimento prestado”, garante.

Vale lembrar: quando o município determinou as restrições a horas extras, o secretário Fernando Monti garantiu que as eventuais mudanças não prejudicariam a assistência.

Sindicato se reunirá com o prefeito

Por meio de nota aberta, o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinserm) já havia se manifestado contra os cortes nos gastos com pessoal. Ontem, a diretora Célia Cristina Paulino não descartou a possibilidade de a entidade recorrer à Justiça para tentar reverter novos prejuízos à categoria. Antes disso, no entanto, se reunirá com o prefeito Rodrigo Agostinho no próximo dia 15, quinta-feira.

“Soube do caso de um recepcionista que trabalhou sozinho e não conseguiu parar para se alimentar nem que fosse por 10 minutos. É um absurdo. A coisa não pode continuar assim”, afirma Célia.

A dirigente sindical ressalta ainda que as perdas salariais decorrentes da medida do governo afetam ainda trabalhadores de outras secretarias, do DAE e da Emdurb.

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