Aconteceu de novo. Agora, em uma universidade comunitária no estado de Oregon (EUA). Mais um assassinato em massa. Nove mortos e sete feridos. Em três anos, 142 crimes com armas de fogo em universidades americanas. Uma média de um atentado por semana. Chris Harper Mercer, 26 anos, o assassino. Ordenou que suas vítimas se deitassem no chão. Depois exigiu que se levantassem e dissessem a religião professada. Em seguida, um tiro na cabeça. A cada tragédia que tanto se repete, a pergunta é sempre a mesma: por quê?
Difícil resposta. Não há um perfil de fácil definição. Alguns eram extremamente tímidos, outros extrovertidos. Uns se sentiam superiores, outros se reconheciam medíocres. Alguns de classe econômica favorecida, outros pobres. Havia os intelectualmente brilhantes, muitos, contudo, de inteligência limitada. Alguns eram vitoriosos no esporte e no trato com o sexo oposto. Outros amargavam a solidão e o desprezo das meninas.
Para muitos, o “mass murder” é um doente mental. Outros discordam, enfatizam como bastante o momento da perturbação mental. Há os que denunciam a facilidade injustificável na compra de armas de fogo. Muitos sociólogos condenam a ideologia competitiva do “self-made man” (o homem que constrói o próprio sucesso), uma espécie de darwinismo social que contrapõe perdedores (“losers”) a vitoriosos (“populars”). Nessa cultura, que exclui os mais fracos e premia ostensivamente os mais fortes, frustrações, ressentimentos, ódio e vingança são decorrências previsíveis.
Por outro lado, há uma convergência de sinais. O primeiro deles evidencia que o assassinato massivo é coisa de homens. As estatísticas não deixam duvidas: 97% das matanças são protagonizadas por homens. Outro sinal merecedor de observação: todos esses atos homicidas são públicos. Os jovens matadores querem protagonizar a cena. Não lhes interessa qualquer proteção física que lhes oculte a identidade. Ao contrário, querem aparecer de cara limpa. Ser visto e identificado é condição necessária para ganhar as manchetes da mídia. Querem documentada ao máximo a cena - primeira e última - em que se mostram detentores do poder maior, o poder da morte. É assim que invertem a condição de “losers”. É assim que proferem o discurso da desforra. É assim que se mostram vingados e vitoriosos. Nada lhes pode gratificar mais do que a súplica maior, o “pelo amor de Deus”, o desespero de seres que rastejam sob seus pés. O tiro policial, que vem depois e os matará, não importa: as cenas já foram gravadas, prontas para a desejada publicação.
Lamentavelmente, o tratamento midiático que tudo espetaculariza contaminará, certamente, outras mentes perturbadas, fazendo ainda mais caudaloso o rio de sangue e de dor. Celebrizar o assassino é incentivar potenciais matadores. O que se há de fazer? Muito. Muito se há de fazer e em todas as direções. É preciso enfrentar os lobbies da poderosa indústria e do comércio de armas. Essa tem sido a incansável bandeira do presidente Obama, cujo discurso se repete dolorosamente a cada tragédia. É preciso impedir com tecnologia a entrada de armas nas universidades. É preciso mais atenção aos sinais de desvios de comportamento. É preciso repensar os valores individualistas que tanto gostamos de disseminar. Vivemos em sociedades doentes, cultivamos valores doentes, como manter, então, a desejável sanidade?
Recentemente – 23/03/15 - o espaço universitário virou aeronave. Era o Airbus A 320-200, da empresa Germanwings, voo 4U-9525, de Barcelona a Dusseldorf, 142 passageiros e 6 tripulantes. Todos mortos num choque violento contras as montanhas dos Alpes franceses. Andreas Lubitz, o depressivo copiloto, que derrubou o avião, havia dito à namorada “um dia o mundo inteiro vai conhecer o meu nome.” Aconteceu.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras