Articulistas

Alguém pode garantir?

Eduardo H. Alferes
| Tempo de leitura: 3 min

Um amigo, da época do mestrado, recentemente me encontrou e fez um convite para juntos iniciarmos em 2016 um longo curso (doutorado). Alegre, instintivamente respondi prontamente que sim. Mas imediatamente após responder veio a razão e lhe disse: lamento amigo, não posso garantir que conseguirei, possivelmente não estarei mais aqui para poder terminar o curso. Ele ainda não sabia, mas sou portador de Colangite Esclerosante Primária (CEP), uma doença degenerativa do fígado, e Colangiocarcinoma, um câncer dos dutos biliares, em estágio bem desenvolvido.


Mas, contando com a inteligência e perspicácia do amigo, e ao perceber o patente constrangimento em sua face, mistura de piedade com antecipação do sentimento de perda, lhe perguntei: e você, pode garantir que estará vivo até o término do curso? A pergunta, aparentemente simplória, mas nada superficial, caiu como uma bomba em sua mente, em seus sentimentos mais escondidos. Por uma série de fatores, evolução clínica, exames, prognósticos médicos, estatísticas, etc., sei que há uma grande possibilidade de não chegar sequer a concluir o processo seletivo do curso, mas esses mesmos critérios não dão qualquer indício de que ele tenha algum empecilho. Porém, nesse momento surge o imponderável, o inesperado, o desconhecido, ou qualquer nome que se possa dar aos acontecimentos trágicos que afetam milhões de pessoas no mundo e que, sem estarem preparadas, são surpreendidas com o inevitável. Sim, a morte, queira ou não você, caro leitor, é inevitável. Talvez seja o único evento certo em uma existência tão cheia de incertezas.


Recebi a resposta quase muda: eu também não posso garantir, apesar de esperar que sim. Esse foi o foco de nossa conversa, talvez a última que pude ter com esse amigo. Se, com maior probabilidade, como eu, ou menor, como ele, ninguém pode garantir que estará vivo daqui a alguns poucos meses, ou amanhã, por que não lidamos com isso de maneira clara, positiva, produtiva? Por que não mantemos nossos projetos pessoais e familiares, sem esquecer de nos portarmos como se não estivéssemos mais aqui amanhã? Não se trata de aproveitar o dia irresponsavelmente, mas de aproveitar intensamente, como se fosse o último. Se não for, ganha-se a maior dádiva possível... mais um dia de vida para novamente aproveitar. Aproveitar os momentos em família, aproveitar para sermos importantes.


Ser importante me parece uma das chaves para essa relação. Gosto muito da explicação de Mario Sergio Cortella, que nos lembra em palestras e alguns de seus livros que ser importante não é ser famoso, conhecido por multidões, ou ter uma fortuna material. Importante, aqui, vem de importar, ter sido importado, trazido para dentro de e por alguém, estar afetivamente no ‘coração’ de alguém. E quando nos formos, e todos iremos um dia, por ter sido importado para os sentimentos, para a história afetiva de alguém, seremos lembrados com carinho, com saudade. Isso é ser importante.


Concluo aqui como me despedi do amigo antigo. Espero que faça o doutorado e seja feliz em fazê-lo. Espero que nesse caminho torne-se cada vez mais importado por alguém, cada vez mais importante e, trilhando esse objetivo, seja feliz e faça outros felizes. Que todos sejam felizes, sem se esquecer que somos finitos, somos pequenos, mas podemos ser importantes para cada vez mais pessoas.


O autor é pai, esposo, filho e irmão. Também mestre em Direito Penal, Oficial Ref da PMESP, professor universitário, advogado

Comentários

Comentários