Tribuna do Leitor

Memórias de uma professora

Profª dra Terezinha Santarosa Zanlochi
| Tempo de leitura: 4 min

Nesta Semana do Professor, tão formal, porém tão significativo para quem exerceu esta profissão, estou a me lembrar dos momentos em que meus muitos alunos brilharam na minha vida. Lembro-me do Marcelo, aluno de 8ª série, no Moraes Pacheco, que num dia de prova, ao terminá-la, chegou perto de mim e me disse: -“Professora, respondi às perguntas, mas continuei escrevendo tudo o que sei sobre o assunto”. Meu Deus, corrigi a prova deste amado aluno com a maior atenção possível. Ele era tão bom que aos 18 anos Deus o levou para perto de Si. E os  irmãos Célio, Eduardo e a Silvana, hoje enfermeira padrão na UTI do  Hospital Estadual, que até hoje me telefona para cumprimentar a velha professora!  Nossa, isso é bom demais!


A Terezinha, uma aluna do colegial, por ocasião de meu aniversário, fez e cantou com a classe uma música para a mestra “Linda como as flores, olhos claros como o céu”. Me emociono  até hoje quando ouço a gravação. Ela foi premiada pela Educação do Estado com um projeto de canto coral que desenvolveu numa escola, como voluntária! Também tem o Donizeti, um garoto da 6ª série, negro e cheio de dignidade que não deixava  barato quando o ofendiam. Um dia, um homenzarrão chegou à porta de minha sala de aula, tentando invadi-la para esmurrar o Donizete que havia revidado a ofensa  recebida do  filho dele. Gente... foi um sufoco mostrar àquele pai o que seria a verdadeira educação.


E o rapaz de 18 anos que me fez trocar de três vezes de maneiras de ensinar. Não havia meios de conquistá-lo. Uma noite, já quase no final da aula, não mais suportando o comportamento horrível dele, andei em sua direção, encarei-o e o chamei-o  para medir forças! Disse-lhe que, se esta era a linguagem que ele conhecia, eu estava pronta. Disse também que ele me mataria no primeiro empurrão, mas.. .ficaria marcado para sempre como “o moço que havia matado a professora”. Tocou o sinal , todos desceram e eu me dirigi para o estacionamento, morrendo de medo, acreditando que ele iria me pegar de tocaia. Minhas panturrilhas tremiam que só. Acreditem,  nunca mais este aluno me deu trabalho.


E as cartinhas, cartões de natal e provas que tenho guardadas? São de uma seriedade fantástica para alunos jovens e já tão responsáveis! O segredo da Helô, uma criança quase e com uma carga tão pesada; o boletim do Alexey, com notas máximas em todas as matérias o ano todo e que ele me deu como recordação! As fotos da turma do Adriano, do Marcão da 6ª série, hoje pe. Marcos, da Simone, na minha casa e no rancho em Avaré, quando foram passar férias comigo. Que delícia ver estas coisas e pensar que tudo aconteceu de verdade.


E a Cissa, tão querida, que ao final do meu curso, na universidade, sentou-se e reescreveu num só texto, que guardo comigo, toda a aprendizagem que havia adquirido. É uma gostosura só quando pego aquele texto! O Alan, a Giseli, o José Carlos e o outro José, que  arrebentaram a aprendizagem fazendo um documentário cinematográfico sobre a repressão do anos 60, intitulado “Magnólia” e deram um show com a criação, elaboração e exibição de um programa de rádio dos anos trinta, sobre o DIP  criado pelo Getúlio! E o grupo de História que transformou o primeiro livro publicado pela  EDusc, do George Riedl, ‘A escravidão em São Paulo (500p.)’, em peça teatral “A cor da escravidão”... Foi lindo demais! A Maria Eugênia com seus colegas, que encenaram a luta de Lampião, reunindo a vizinhança toda, adultos e crianças como figurantes! Incrível a capacidade deles!  A Magê hoje está na Comunicação da Unesp!


Guardo todas as gravações e já troquei o suporte para CD. Não quero perder nada! É a minha história, a minha vida escrita pelos meus alunos amados. Também não esqueço do Pierre e do Thiago, figuras emblemáticas, idealistas ao modo deles. O escrevinhador Henrique P. de Aquino, o Tauan e o Silvio Durante, oposição séria e que me fez uma homenagem no seu primeiro livro publicado; a Anna Carolina, diretora de Cultura em Pederneiras, e o dr. Maintinguer, juiz da Infância e Adolescência, foram alunos que me honraram na profissão.


Então, hoje, neste momento do professor, quero agradecer não só a estes, mas a todos os alunos que cruzaram o meu caminho e foram o meu conforto e meu incentivo para ser, durante mais de 40 anos, uma professora, profissão difícil, pouco reconhecida  e mal paga, mas que ninguém cresce sem ela.

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