Quando olhamos para o mundo à nossa volta com a necessária percepção, descobrimos que fazemos parte de uma grande sinfonia de vida. Cada molécula do nosso corpo já foi parte de corpos anteriores – vivos ou não vivos – e será parte de corpos futuros. As folhas que se desprenderam neste último outono tornaram-se fertilizantes para os brotos que surgem nessa primavera. Nós compartilhamos não apenas moléculas, mas a vida com seus princípios básicos de organização e relação com o restante do mundo. Toda molécula que se transforma num processo vivo apresenta um enigma: eu não seria capaz de escrever uma palavra ou formular um pensamento sem usar moléculas de glicose, mas isso não quer dizer que a glicose pensa.
Estamos encaixados na teia da vida e ela está embrenhada na própria trama do Universo. Na verdade, nós pertencemos ao Universo e essa experiência de pertencer torna nossa vida profundamente significativa. Essa experiência envolve a profunda percepção da interdependência de todos os fenômenos naturais e do fato de que, como indivíduos e sociedades, estamos encaixados nos processos cíclicos da natureza e dependemos deles. Por isso a sobrevivência da humanidade dependerá fundamentalmente da nossa alfabetização ecológica ou nossa capacidade para compreender os princípios básicos da ecologia, da sustentabilidade e de viver em conformidade com essa compreensão. Isso significa que a alfabetização ecológica precisa se tornar uma habilidade crítica para políticos, líderes empresariais e profissionais de todas as esferas e deveria ser parte importante da educação, especialmente, em nível universitário.
Nossas instituições acadêmicas clássicas produzem especialistas tecnológicos ou humanistas e só muito raramente são capazes de se empenhar em manter a abordagem interdisciplinar do conhecimento. Tal abordagem, no entanto, é urgentemente necessária nos dias de hoje, uma vez que nenhum dos principais problemas do nosso tempo pode ser entendido isoladamente. Todos eles são problemas interconectados e interdependentes e têm, portanto, necessidade de soluções sistêmicas.
Infelizmente a maioria dos nossos alunos universitários são privados da experiência estimulante dos diálogos interdisciplinares, são impedidos de examinar os valores da ética, da arte, da música, da poesia e da introspecção pessoal. Assim, estamos educando líderes em vários campos que não conhecem uns aos outros e que não são sensíveis aos valores do espírito humano. É preciso alargar a perspectiva educacional como elemento essencial para dar à luz uma nova geração de líderes capazes de suceder nossos políticos contemporâneos, na sua maioria corruptos, na sua maioria perseguindo objetivos mesquinhos, com visão estreita e sem uma bússola moral.
O estadista tcheco Václav Havel em seu discurso de abertura no Fórum 2000, realizado em Praga, disse: “Tenho a profunda convicção de que a única opção é que algo mude na esfera do espírito, na esfera da consciência humana, na atitude do homem com relação ao mundo e à sua compreensão de si mesmo e de seu lugar na ordem global da existência”. É evidente que para uma nova direção como essa passar a dominar a educação, precisamos de uma profunda transformação em nossas instituições acadêmicas e nos valores que atualmente dominam as sociedades industriais.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru