Articulistas

Jaquetosa

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Jaquetosa por ser simplesmente uma jaqueta gostosa. Gostosa por me abraçar simplesmente como ninguém. Quando nela entro, o prazer do acolhimento. Quando do calor dela preciso, a certeza do momento prazeroso. Desbotada num  veludo cinza puído, velha e feia, ela está lá, no cabide, no canto esquerdo do guarda-roupa.  Entre camisas, paletós e calças, ela me aguarda orgulhosa. Sabe-se preferida. Sabe-se namorada. Minha mulher a odeia com fundadas razões. Não se há de falar, contudo, de infidelidade. Nenhuma lógica em se punir um homem por ter um caso com uma roupa. Caso inocente, diga-se, transparente e, sobretudo, doméstico.


Bem pela manhã, havendo frio que justifique, mesmo antes do café, cumpro o feliz endereço do encontro, sei que ela me espera.  Não a comprei, não sei sequer a sua procedência. Apareceu um dia entre muitas dúvidas e nenhuma resposta. Quem a teria esquecido? Um conhecido? Um amigo? Chego a pensar em coisa armada pelo destino, assim como das linhas tortas alguém acaba  certo escrevendo. Quem lá em casa a esqueceu, por certo bem escreveu.


Estando já dentro dela, sinto-me macio e completo. Então, procuro logo um livro e nas crônicas do Capinejar afundo-me sempre na mesma poltrona. Fico leve e  confortável, um prazer  redondo como uma maçã a ser mordida. Então mordo e leio. Leio e mordo a polpa da sua linguagem tão gostosa quanto a própria jaqueta. Assim me faço feliz. Assim me faço verdadeiro.


“Verdadeiro”, essa palavra, confesso, vem me machucando. Chateia-me pensar que verdadeiro não sou tanto quanto gostaria. Corrijo-me, sou sim inteiramente verdadeiro, mas só quando estou em casa.  Em casa,  sou o que sou. Dentro da jaquetosa, que me abraça,  no chinelo velho , na roupa surrada, na meia furada, fazendo o quero e gosto, eu sei bem quem sou. Em casa, não tenho  que provar nada a ninguém. Em casa, sinto-me livre e, por isso, verdadeiro.


Fora de casa, sou outro. Bem vestido, cumpro compromissos, frequento reuniões, participo de eventos sociais. Converso com quem conheço, mas também com gente que nunca vi. Sempre com o melhor sapato, a melhor camisa e calça, sei que sou um pouco personagem, alguma mentira existe em mim. Bem arrumado, escolhendo palavras na roda de outros bem vestidos, sinto-me postiço. Esforço-me  para cumprir  bom papel. Mania idiota de ostentar.


Acho que o nosso problema crucial é este, a duplicidade. Na desarrumação da nossa casa, somos  o que somos. Fora de casa, nem tanto. É que existem os olhos do outro, existe o protocolo, o palco, a dolorida necessidade de sermos aceitos. Ando meio cansado dessa teatralidade, melhor ficar mais em casa. Sinto que a temperatura caiu, melhor pegar a jaquetosa.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras

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