Regional

Banda centenária de Piratininga foi silenciada

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 9 min

Divulgação
Uma das últimas apresentações da Banda Musical Izidoro Gasparello, de Piratininga

Um imbróglio que já dura nove meses está inviabilizando as apresentações da Banda Musical Izidoro Gasparello, de Piratininga. Os instrumentos silenciaram depois de mais de 100 anos por conta da associação não preencher os requisitos exigidos pela lei municipal 1.3019/2014. 

    
A cidade, que tinha uma tradição com bandas, também perdeu a banda da Legião Mirim que formava músicos para a banda Gasparello. O argumento é que havia pouca procura e que os investimentos foram direcionados para cursos profissionalizantes. 

Música não dá dinheiro, com raras exceções, e por isso é deixada em segundo plano no Brasil. Mas há países que contemplam as crianças com o ensinamento na escola a fim de que elas tenham disciplina e ouvido pronto para ouvir boas músicas, o que não ocorre na maioria dos municípios brasileiros. Sensibilidade não é matéria de interesse geral, quase sempre a prioridade é o trabalho em detrimento da música.

O trombetista da banda Gasparello, Norton Ferreira de Souza, que já foi regente da banda La Salle, de Botucatu, ressalta que música não é só cultura. “É formação de caráter, disciplina, assim como o esporte. O aprendizado de música na escola é tão importante quanto as demais matérias,” diz.

Ele se sente mal em pensar que tantas bandas estão encerrando suas atividades. “Eu me sinto lesado. A banda La Salle, de Botucatu, encerrou suas atividades no ano passado. Ela foi campeã paulista, tocamos em Brasília no desfile da Independência dois ou três anos seguidos. Como músico, me sinto mal, gosto de tocar.” 

O vereador e maestro de Piratininga Ricardo da Silva frisa que as bandas do Liceu Noroeste de Bauru e Veritas, além de algumas na Capital, também encerraram suas atividades. “Bandas conhecidas nacionalmente pararam. A banda do Liceu Noroeste era um cartão postal de Bauru. Fico triste com esse cenário cultural.” 

Sem dinheiro para pagar os músicos da banda Gasparello, a corporação musical de Piratininga silenciou. A prefeitura alega que não tem como pagar a subvenção de R$ 60 mil por ano sem que a agremiação preencha os requisitos exigidos na lei. O maestro e vereador Ricardo da Silva diz que providências estão sendo tomadas a fim de declarar a banda de utilidade pública. De acordo com ele, toda a documentação já está em andamento. Porém, no dia em que a reportagem esteve na cidade, os músicos estavam recebendo os papéis para serem assinados. 

A prefeitura informa que não tem prazo para voltar a fazer o pagamento. Já para o maestro até o final do ano a subvenção voltará a ser paga. Uma enrolação geral se formou na cidade quando da visita da equipe do Jornal da Cidade. Músicos proibidos de falar com o repórter, população com medo de tocar no assunto e informações só sem identificação, tal o medo que as pessoas têm de se envolver na questão.

Com toda a dificuldade criada, algumas pessoas concordaram em falar com a garantia de que não seriam identificadas. Uma delas acha que a banda acabou porque o maestro se envolveu com a política. “Ele é vereador e deixou a banda de lado. A população sente falta, mas vai fazer o quê?”.

João Rosan
Fachada do prédio da Legião Mirim, que optou por investir 

na capacitação de jovens para o mercado de trabalho

Murillo Alvarez Alves é presidente da Legião Mirim  

Legião também extinguiu sua banda 

Presidente da entidade, Murillo Alvarez Alves diz que canalizará recursos para outros projetos para capacitação de jovens no mercado de trabalho 

O atual presidente da Legião Mirim de Piratininga, Murillo Alvarez Alves, não tem formação musical e alega outras prioridades para decidir pelo fim das atividades da banda da entidade. “Eu preferi canalizar recursos para uma coisa que eu acho mais importante, o mercado de trabalho. O encerramento da banda era uma questão que vinha se arrastando há muito tempo. As pessoas que participavam da banda já não eram mais mirins, tinham idades acima de 18 anos, não era o nosso foco.”

Alves enfatiza que tem outro perfil. “Tenho um perfil mais voltado à capacitação de mercado de trabalho. Não tinha procura e os instrumentos musicais precisavam de revisão. Exigia um investimento grande. Decidimos encerrar e gastar a verba com a ampliação do prédio, fizemos outro banheiro. Hoje temos 11 cursos profissionalizantes. Temos em torno de 150 adolescentes, 50 deles no mercado de trabalho em Piratininga.”

Os integrantes da Legião Mirim estão trabalhando nos supermercados e na prefeitura, que é o maior empregador, segundo Alves. “Eles são obrigados a fazer todos os cursos e em torno de dois anos se formam. Eles entram com 12 anos e fazem vários cursos, não só profissionalizantes. Temos cursos de informática e de desenvolvimento humano.”

Ele explica que, na gestão anterior, a diretoria já tinha decidido acabar. “Estava em situação de acabar. A questão da procura foi significativa. Depois tentamos formar a banda de novo com o pessoal de uma escola de música daqui, mas não deu certo. Nós abrimos cursos de violão que não era voltado a banda, outro segmento musical, mas também não houve interesse.”

O atual presidente da entidade não soube precisar quantos anos a banda durou e nem quantos instrumentos tinha. “Não tenho informação para passar. Tem alguns instrumentos que não me recordo se são da Legião Mirim ou da banda musical. Eles estão lá naquela sala, pouca coisa. A banda tem seus instrumentos.”

Alves alega que as diretorias anteriores não fizeram um inventário dos instrumentos e, portanto, não é possível saber quantos tinham e quantos estão guardados ou emprestados. Segundo a denúncia de um morador, os instrumentos desapareceram ou foram para a banda Izidoro Gasparello, já que o maestro era o mesmo regente. Fato que o presidente nega.

“Preciso puxar a relação para ver. A gente teria que ver quantos. As diretorias não fizeram inventário desses bens. Quando eu assumi não recebi inventário. Os instrumentos estão guardados. Não foi para a banda municipal, acredito que não. Acho que tem instrumentos da banda que estão aqui, tem dois ou três deles. Não tenho levantamento dos instrumentos. Eu acho que não é isso. Não tem instrumentos nossos lá.” 

Ele explica que na faixa de atendimento da Legião Mirim quem tem interesse em música é canalizado para uma escola particular. “Nós não deixamos de ter formação musical a gente escolheu não ter esse aparte de recursos. Sobre os instrumentos eu não acompanhei muito. Realmente tinham instrumentos que eram utilizados pelos próprios mirins que ficavam na banda. A última informação que eu tenho é que foram todos devolvidos. Ela não é uma banda  municipal é uma associação privada, não tem nada a ver com a área pública em si. Não temos um local apropriado para guardar os instrumentos, esse também foi um dos motivos do encerramento. Abrimos as salas só para capacitação.”

O maestro da banda e vereador Ricardo da Silva confirma que deixou a banda da Legião Mirim por problemas particulares e falta de tempo. “Eu fui eleito vereador e tinha que dedicar a política e resolver problemas particulares. Eles optaram por encerrar ao invés de contratar outro maestro. Lá tinha poucos instrumentos. Estão na sede da Legião Mirim, a maioria dos instrumentos eram particulares dos  músicos que usavam os próprios instrumentos.”

Última apresentação

Os últimos toques nos instrumentos musicais da banda de Piratininga foram dados no aniversário da cidade, em maio. Segundo o maestro Ricardo Silva, há a possibilidade de a banda receber R$ 60 mil da Secretaria da Cultura para aquisição de novos instrumentos. “Falta só o governador liberar a verba para os instrumentos. Já entregamos toda a documentação.” 

O prefeito Sandro Bola (PSDB), segundo o vereador, está agilizando a reforma do Centro Cultural que ocupará um antigo clube da cidade, ao lado da igreja matriz. “Eles estão restaurando tudo. A banda vai ficar lá. A biblioteca e as oficinas também. Haverá teatro e os violeiros terão  seu espaço. Pretendemos montar uma escola de música voltada para a banda.”

João Rosan
O maestro e vereador Ricardo da Silva diz que

banda parou por falta da subvenção municipal

Subvenção é para pagar os músicos e quitar os impostos 

O maestro e vereador de Piratininga Ricardo Silva explica que a banda Izidoro Gasparello parou de tocar em maio deste ano porque não recebeu mais a subvenção da prefeitura. “Os R$ 5,8 mil recebidos por mês dão pouco mais de R$ 200 para cada músico, porque somos em 15. Eles dispõem de tempo no final de semana. Não sobra dinheiro nem para pagar o conserto dos instrumentos.”

Segundo Silva, a banda tocava no coreto da praça da igreja, mas no período do inverno as pessoas não paravam para assistir às exibições, por isso foi mudado o horário das apresentações. “A banda tocava à noite no coreto do jardim central, após a missa. Com a falta de público, levamos a música para outras praças e mudamos o horário. Passamos a nos apresentar pela manhã, sempre aos domingos.”

A esperança de colocar a banda para tocar está no processo de torná-la de utilidade pública. “Estamos passando para utilidade pública”. Para isso, além de toda a documentação será necessário que seja criada uma lei municipal de autoria do Executivo para transformar a banda numa entidade de utilidade pública. Essa lei tem alguns requisitos que estão sendo regularizados.”

Quando o prefeito mandar a lei para a Câmara poderá ser votada e só assim a banda será declarada de utilidade pública. O Tribunal de Contas orienta que se faça uma licitação para contratar a banda para tocar para a população.

Desde que a suspensão do repasse foi suspensa, segundo o maestro, os integrantes da banda estão correndo atrás da documentação. “O Tribunal de Contas vem apontando para a prefeitura parar de subvencionar a banda. Já não é de hoje.”

Prefeitura alega que não tem previsão para mandar a verba

O coordenador de Finanças da prefeitura de Piratininga, Luiz Henrique Corsioli, é enfático em dizer que não há prazo para que o município volte a pagar a subvenção municipal à banda Izidoro Gasparello. “Não sabemos o que vamos fazer. Por enquanto a subvenção não voltará a ser paga. Passamos o problema para os integrantes da banda. Eles têm que se adequar às regras da lei.  Não tem previsão, estamos se esforçando para voltar. Vai depender de muitas coisas,” afirma.

Corsioli lembra que a lei 1.309/2014 prevê vários critérios para pagamento de subvenções. “Como eles são uma associação teriam que ter sede própria etc.  Eles têm que conseguir se encaixar. Tem que ter critério de avaliação, meta. O perigo de passar os valores é ter que pegar de volta. Eles estão tentando, não entraram com a documentação ainda. Estamos procurando a melhor forma para mantê-los.  Estamos tentando ver o que dá menos problemas.” 

Segundo o coordenador, a subvenção existe. “Foi cortada porque eles não preenchem os requisitos. Foi cortada a subvenção da banda, mas a  dotação está lá. O que ocorre é que associação para quem passávamos a subvenção não atende alguns critérios. A subvenção foi prorrogada durante o ano, mas agora que entrou em vigor, achamos por bem não renovar o convênio. Procurar outras formas para fazer o repasse. Estamos aguardando o desfecho da lei. Anualmente o repasse era de R$ 60 mil.”

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