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A chaminé do Titanic

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Quem aí não se lembra da propaganda do Denorex? Tá bom, ok, os mais jovens sequer coçam a cabeça como gesto de dúvida: não fazem ideia. Denorex era um xampu que adotou o slogan “parece, mas não é” em comerciais porque parecia remédio, mas não era. Tantos anos depois parece que, como nunca, estamos vivendo a “era denorex”: muita coisa parece, mas, definitivamente, nunca será.


Como políticos que parecem honestos: com tanta exposição em diversas vertentes da mídia fica mais fácil, atualmente, perceber quem está apenas fazendo pura pose. O olhar do desonesto sempre parece uma confissão de culpa estatelada na cara.


A própria vida parece ter melhorado em muitos aspectos, mas não é verdade quando se trata de saúde pública, por exemplo. Calma, sei de avanços e de boas instituições. Estou, obviamente, fazendo citação mais geral. E, no geral, parece que a coisa ainda patina nos corredores, por entre macas e desesperança.


Também parecia que era uma nova república a se formar há alguns anos, mas faltou combinar com os incorrigíveis. Aqueles cujo histórico é voltado para dilapidar o patrimônio nacional, inclusive o moral. Agem em família, em coesa quadrilha... O Brasil, por si só, é o país que parecia motivador, mas...


Não vou aqui parecer contraditório em relação a artigos anteriores: sigo acreditando. É preciso acreditar. Mas leva-se a crer que, na encruzilhada em que estamos, não há garantias de final feliz para a nação. Não só parece, é verdade que ainda teremos dias difíceis pela frente. Seria o Brasil um transatlântico a caminho do iceberg?  


O próprio Titanic, vim a saber durante a semana, não era exatamente o que parecia. Tinha quatro belas e imponentes chaminés (pode reparar nas fotos, desenhos e filmes), mas uma era apenas ornamental. Não servia para nada do ponto de vista funcional.


Algumas chaminés do Brasil também nunca funcionaram. E, em meio a tanta turbulência, desejar uma navegação em águas calmas passou a ser quase utopia.


Que possamos, pelo menos aos nossos filhos pequenos, parecer um pouco menos pessimistas. Até porque parece que não temos opção: navegar é preciso, e não adianta navegar sem fé. Que seja esse o parecer dos bons – e que tenhamos futuro, apesar dos maus.  Melhor se apegar a isso do que naufragar em lamentação, não é?


O autor é editor executivo do JC

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