Logo que chegou à redação do Jornal da Cidade na manhã de ontem, Sebastião Bortone disse com os olhos brilhando: “estou em casa!”. Neste sábado, ele completou 85 anos. Para comemorar, veio a Bauru reencontrar familiares e amigos.
E ele veio visitar o JC, onde trabalhou como repórter em “mil novecentos e bolinha”. “Faz tanto tempo que nem lembro mais! Só sei que daqui fui para Goiânia e, depois, Brasília, de onde mandava matérias não só de política, mas de qualquer assunto”.
Ele, que nasceu em Monte Santo (MG), “desembarcou” em terras bauruenses na década de 1950 acompanhando os pais, Antonieta e Luiz Bortone, junto com cinco irmãos. Duas das três irmãs e vários sobrinhos ainda moram aqui.
Há 30 anos, Sebastião não via a cidade “Sem Limites”. E o que achou? “Bauru está 30 anos mais bonita”. Com boa memória, guarda daqui muitas lembranças. “Se eu destacar uma ou outra, fica pior. Gosto de Bauru assim, com tudo! Mudou muito, mas não deixou de ser maravilhosa”, dispara.
É um belo elogio, ainda mais para quem mora em Parmamirim, pertinho de Natal (RN) há muitos anos. Lá, além de escrever, é ainda corretor de imóveis. “Não corro atrás de imóvel, não! Eles que correm atrás de mim e vendo!”, conta, orgulhoso, mostrando o lenço em que está bordado o Creci.
Vida de escritor
O dom com as palavras levou Bortone a muitos lugares. “Tomei gosto pelo jornalismo e ele foi me levando. O jornalista tem que expandir os horizontes. Amadureci muito viajando, e sempre com a grana curta!”, conta com seu jeito simples, mesmo acumulando grande experiência em vários jornais, rádios e emissoras de televisão.
Na década de 1970, quando escrevia para o Jornal de Brasília, houve um boato de que o repórter era comunista. “Os homens (da repressão do governo militar) pegaram no meu pé e não havia mais emprego para mim. Foi aí que resolvi escrever meus livros e vender de porta em porta, passando por várias cidades”, relembra sem tristeza.
“Essa história me ajudou, porque recebi um convite para conhecer a então União Soviética e tive a vivência para escrever meu primeiro livro ‘10 dias que abalaram a Rússia’, publicado em 1978”.
De lá para cá, foram ao todo nove livros, todos independentes. Outros retomaram questões russas; a maioria, tem conteúdo político e social.
No início de 2015, lançou o primeiro infantil, uma homenagem à obra de Monteiro Lobato. Seu 10.º livro já está a caminho, e deve ser publicado no ano que vem.
Apenas um dos seus livros teve prefácio: “Sebastião Bortone é um contista de indeclinável vocação”, escreveu Jorge Amado.
“Conheço toda a obra de Jorge Amado e continuo lendo, para aprender. Leio de tudo, desde que chegue na terceira ou quarta página, porque é um sinal de que gostei do livro”.
Como escritor, Bortone ganhou diversos prêmios literários e, espontaneamente, comenta o cenário da leitura no País: “o brasileiro gosta de grandes livros, mas não de livros grandes!”.
Cabeça em dia
Típico descendente de italianos, Bortone evita o sol, mas costuma passear na praia e, de vez em quando, molha o corpo. “Faz bem para a saúde!”.
E saúde, garante ele, não lhe falta. “Fiz um monte de exames para o médico autorizar a viagem de avião e está tudo ótimo. Podia até ter vindo sozinho!”, conta “cheio de si”, mas veio acompanhado da filha Dora.
Ela é fruto do segundo casamento, com Eliet, com quem teve também Yuri. “A esposa ficou lá. Estamos juntos há 40 anos, é uma parceria”. Eliet já tinha uma filha, Ana Cláudia, que deu a Bortone seu único neto até agora, Heitor, de 3 anos. “Dei a ele o apelido de ‘chumbinho’, como é pesado! E ele me chama de Tião, porque era tio Sebastião e juntou tudo!”.
Do primeiro casamento, tem dois filhos: João Luiz e Vitor Hugo. “Vou a São Paulo na segunda-feira para visita-los. De lá, volto para casa”. A programação, quem definiu foi o próprio Bortone.
“O pessoal quer programar a minha vida, mas sou eu quem faço isso! Tanto que já me programei para chegar a 2030 e comemorar meus 100 anos aqui em Bauru”, promete aos risos.
A receita dessa animação não é segredo: “fiz todos os esportes que pude, nunca fumei, não sou de ficar em bar e bebo muita água. Viver em Natal exige, sabe? Eu sou idoso, mas não velho. Tem gente que, com 60 anos, compra a rede, o chinelo e para. Eu não!”, finaliza, deixando mais essa lição.