Articulistas

Espetáculos de si mesmo

Alexandre Albertini Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Dentre os pecados capitais, o Orgulho, orgulhosamente, destaque recebe. Segundo o filósofo São Tomás de Aquino, o pecado isoladamente fora estudado, por ser o mais nocivo. Do latim ‘superbia’ e ‘vanitas’, a transgressão divina, preocupada com a imagem, ganhou sinônimo  de  vaidade. Inúmeras foram as alusões ao conceito. Shakespeare, na obra Coriolano, destaca: “Que acontece, marotos rezingueiros, que de tanto coçar a pobre crosta da vaidade vos transformais em sarna ?”.


Em  O Rei Lear, o pai, desejando-se aposentar e alimentar sua vaidade, declara às três filhas realizar volumosa divisão de seus bens a quem melhor souber reconhecer sua  grandiosidade de rei. Duas das três filhas elaboram as mais gordas manifestações de elogios. A mais nova, ao recusar a demonstração, é expulsa da casa. Orgulhoso, o pai vê nas demonstrações filiais o esperado, dividindo-lhes sua fortuna. Cansadas do velho pai, as duas filhas, afortunadas, abandonam-no. Neste momento, a mais nova regressa à casa paternal para lhe assegurar sincero zelo.


Machado de Assis, no romance Iaiá Garcia, evidencia o tema com a personagem Estela Antunes, que se vitimiza da limitada  posição social para recusar o amor de Jorge, numa demonstração de superioridade pelo homem que ama. Em Eclesiastes, encontramos:”Vaidade, Tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. Todas as coisa são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem ouvidos se enchem de ouvir. O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.”


Ricos, bonitos e dignos de muita admiração. Uma vida à Facebook. Viver, hoje, é ser visto, visto que ver é viver. A vaidade do mundo é parecer para todo o  mundo quão  importante e interessante somos, ainda que toda  felicidade exibida  seja ou esteja falaciosa. A vaidade da vida moderna é vitrinizar sucesso, a superioridade de um classe social sobre a outra. Aparentar é preciso. Nesta convivência cosmética, neste relacionamento de outdoor itinerante inexistem exibições de doenças, cólicas, desordens intestinais e disfunção erétil.


Capsulada, a felicidade, também vaidosa, é, no duro, enviagrada para ninguém brochar.Assim funciona a sua lógica. Enquanto a  humildade é o sim, a vaidade, o não. É a substituição do mérito pela fama. É  a proibição de vulneráveis demonstrações, para teatralizar aos outros quão dilatada é nossa auto-estima. Impensável falhar. Impossível entristecer-se. Antigamente, o fracasso, a queda passaportes seguros eram para o crescimento do caráter, para a consolidação da fé. Aprendia-se a levantar com as quedas. Agora, inadmissível cair. Humilhante seria para vaidade do empreendedorismo bem vestido, bem penteado, bem viajado.


Desta forma, oportuniza-se a criação do Homem Efêmero, envaidecido na efemeridade da vaidade. Um indivíduo individuado. Um anti-Hamlet, convicto na tese do aparecer ou não aparecer, eis a questão. Nesta busca pela autosatisfação,  debruçam-se surreais esforços para valorização imagética. Para aparecerem jovens  e saudáveis - acredite! -  há quem aplique venenos de toxina botulínica  de vaca. Tamanha  atitude  justifica o estudo da botânica, por  haver tantas flores improdutivas em vasos meticulosamente ornamentados.


E neste ir sem vir de brevidades, a vaidade catalogou nova forma de convivência. No lugar de consertar roupas, sapatos e  relacionamentos, trocamo-los. Substituímos a dor do desgaste emocional pela vaidade da novidade triunfal. Até porque o outro, sendo nosso espelho, reflete sincera imagem, legítimo reflexo da nossa intolerância, das nossas imperfeições. Portanto, mais cômodo julgar a vaidade alheia. A nossa, ofensiva é. Por tudo isto, o que antes considerado era pecado, hoje, tornou-se, um fomento motivacional à autoestima, ou melhor, uma instituição, uma grife, um rico vício da miséria humana. Uma verdade da nossa social  mentira.

            

O autor é professor de Língua Portuguesa de colégios e universidade e  doutorando em Letras pela Unicamp

Comentários

Comentários