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Cresce abandono de animais em Bauru

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Alguns protetores de Bauru perceberam o aumento de animais abandonados na cidade neste ano em relação ao anterior. Já a prefeitura acredita que a adesão de pessoas sensíveis à causa é que cresceu, fato que deu mais visibilidade ao assunto, inclusive, no noticiário local. Embora não haja um censo que contabilize a quantidade de cães e gatos errantes, eles não estão em número reduzido e isso pode, sim, impactar na saúde humana.

Vice-presidente da ONG Bem-Estar Animal, Damair de Almeida, afirma categoricamente que o descarte de animais disparou neste ano. Tanto que a entidade atendeu, desde o início de 2015 até o momento, 150 animais, sendo a maioria formada por gatos. Ela atribui à queda do poder aquisitivo das pessoas, que, muitas vezes, não tem condições de bancar atendimento veterinário. “Mães com filhotes também são frequentemente abandonados”, acrescenta.

Damair conta que a ONG possui quatro pessoas cadastradas que dão um lar temporário aos animais. “Não passa um dia sem ter uma pessoa querendo se desfazer de um animal. É muita falta de amor. Nós castramos de graça ou por um preço popular. Fazemos de tudo para colaborar com essas pessoas, mas não sei o que acontece, elas continuam descartando”, critica a protetora.

O diretor jurídico da ONG Naturae Vitae, José Hermann, afirma que o País - não apenas Bauru - vivencia a cultura do abandono, além da omissão do Estado em fazer a castração dos animais, que é apontada pela entidade como a única forma de controlar a população. “A seleção natural não se aplica nas cidades, porque qualquer um consegue sobreviver. Diante disso, os animais se reproduzem de forma absurda”, argumenta.

Embora a Naturae Vitae não recolha animais, a instituição os direciona para lares temporários e mobiliza candidatos para a adoção efetiva. “Nós resgatamos das ruas e bancamos o tratamento, além da alimentação. Desde o início deste ano até o momento, as 30 pessoas cadastradas para os lares temporários já acolheram 150 animais das ruas. Na maioria dos casos, eles são portadores de doenças e não conseguimos virar a cara”, defende.

Impacto

O diretor da Divisão de Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde, Daniel Godoy Tarcinalli, informa que o impacto dos animais de rua para a cidade versa sobre a transmissão de doenças para o ser humano. “Eles podem transmitir leishmaniose, toxoplasmose, giardíase e outras zoonoses através das fezes. Os animais abandonados ou aqueles que têm donos, mas vivem nas ruas, fazem as necessidades em qualquer lugar e o risco aumenta”, frisa.

Por outro lado, Tarcinalli argumenta que não há condições de precisar se a população de animais errantes aumentou ou diminuiu, mesmo porque não existe um censo que os contabilize. O que há é uma estimativa da quantidade total de cães e gatos, contando com aqueles que têm donos. Esses dados são calculados pelo Instituto Pasteur, órgão vinculado à Secretaria do Estado da Saúde e responsável por repassar a vacina antirrábica ao município.

Os dados mostraram que Bauru possui uma quantidade estimada de 43.420 animais, sendo 38.010 cães e 5.410 gatos. “É difícil mensurar se houve aumento, porque há mais ONGs do que se tinha antes e mais pessoas interessadas na causa animal. Será que é aumento mesmo ou as pessoas estão começando a perceber que há muitos animais nas ruas?”, questiona o diretor da Divisão de Vigilância Sanitária.

Mais gatos

A presidente da Associação Bauruense de Proteção Animal - SOS Gatinhos, Sandra Regina Ariede, também afirma que já ajudou, em média, 150 animais desde o início deste ano, mas a maioria dos bichinhos auxiliados pela entidade é formada por cães. Contudo, ela ressalta que o abandono de gatos é ainda maior. “Nós não conseguimos chegar perto da maioria dos gatos, porque eles não são tão receptivos quanto os cães, mas há maior preconceito em torno deles e, consequentemente, maior abandono”, justifica.

ONGs apontam castração para amenizar o problema

O ativista digital e protetor de animais Cristiano Duarte conta que ele e quatro ou cinco pessoas já auxiliaram, em média, 150 animais desde o início deste ano e aponta a castração como a melhor solução ao problema. “Infelizmente, o programa municipal de castração de animais está parado. Bauru está muito atrasada nesse quesito. Existem ideias concretas que podem ser realizadas”, pontua.

Conforme o JC publicou no dia 4 de julho deste ano, o Programa de Controle da População Canina e Felina em Bauru é pleiteado há anos, no entanto, ainda não aconteceu. O chamamento público aberto pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) para o credenciamento das clínicas veterinárias interessadas terminou com um número insuficientes de estabelecimentos cadastrados.

Apenas quatro clínicas procuraram a Semma. E detalhe: três delas estavam com o alvará de funcionamento irregular na época e, portanto, impedidas de se credenciarem. A Semma realizou novo chamamento, mas, segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, nada está resolvido. Essas clínicas interessadas ainda estão se adequando para participar e não há prazo para que, de fato, o projeto saia do papel.

Já o diretor da Divisão de Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde, Daniel Godoy Tarcinalli, defende que a castração é importante, mas não é a única solução. “Se as pessoas continuarem agindo de forma inadequada com os animais, ou seja, evitar a vacinação, alimentá-los erroneamente e mantê-los doentes, o risco de transmissão de zoonoses não é eliminado”, justifica.

Ele também pontua que a pasta faz a sua parte no sentido de fiscalizar e atender denúncias de maus-tratos, além de promover campanhas de conscientização. “Nós trabalhamos com as crianças em cima desse tema, mas parece que não adianta. Essa falta de responsabilidade se dá em outras áreas, como a manutenção de terrenos sujos e das casas com criadouros de dengue. A solução seria um trabalho conjunto entre prefeitura, cidadãos e ONGs”, finaliza.

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