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A tempestade começou

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

França, 13 de novembro de 2015. 129 mortos e mais de 350 feridos em Paris. Sangue e dor escorrem no chão e na alma dos franceses. Igualmente, na alma de cada um de nós. Atentado assumido pela facção Estado Islâmico. Traumatizado, o mundo sofreu e abraçou o sofrimento do povo francês.

Quênia, 21 de setembro de 2013. 70 mortos e 170 feridos. Sangue e dor escorrem no chão de shopping em Nairóbi, também na alma dos africanos. Atentado assumido pelo grupo Al  Shabaab, da Somália. Claro, a notícia não teve, nem de longe, a mesma comoção. O eco midiático sabe onde deve soar mais forte.

A tragédia de Paris continua doendo em cada um de nós. E é bom que assim seja. A consciência precisa sofrer para se indignar. Soframos, então, e nos indignemos sempre. Não nos esqueçamos, contudo, de que a vida perdida tem igual valor, pouco importando se  na Europa,  na África, nos morros ou nas  franjas violentas das cidades brasileiras. Uma vida sempre valerá uma vida.

As balas e as bombas terroristas, essas nada valem. Serão sempre brutalidade injustificável. A discordância, sendo natural, deve ganhar a boca de quem protesta, jamais o corpo de quem se  amarra a bombas suicidas. Delirante é essa  ideia de uma guerra santa, nenhum manto veste o ódio e a intolerância fanática. Ideias se combatem com ideias, jamais com fuzis. 

Mas foi com 20 bombardeios  que a França, dois dias depois, deu o primeiro troco, atacando Raqqa, “a capital do Estado Islâmico”, no centro-norte da Síria. Os países da coalizão internacional, seguindo o mesmo tom, certamente intensificarão os bombardeios. Triste, mas muitos inocentes também lá morrerão, exatamente como ocorreu na Cidade Luz.   

A guerra começou. Teremos bombas contra bombas, ódio contra ódio, sangue contra sangue, vidas, muitas vidas se perdendo lá e cá e - quem sabe? - até por aqui. A presidente Dilma garante que não, mas acha bom aprovar logo a lei antiterrorismo, hoje  no congresso.

Se ideias se combatem com ideias, pergunto: vale a mesma regra para balas e bombas? Não haveria outro caminho possível de entendimento? Haverá de ser necessariamente pela sonora tempestade de explosões?  Perguntas infelizmente respondidas com outras perguntas: existe alguma possibilidade de diálogo com  quem tem todas as certezas? Com quem não aceita as diferenças culturais? Com quem corta pescoços em nome de Deus? 

A tempestade, infelizmente, começou.

 

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras

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