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Adeus, Paris...

Carlos D'Incao
| Tempo de leitura: 3 min

Conheço bem Paris. Mais que isso, conheço bem o que a esmagadora maioria dos parisienses pensa. Dizem eles em alto som: “Estaríamos melhores sem os imigrantes, em especial os islâmicos!”. Estão errados. Muito pelo contrário, são esses imigrantes e os cidadãos franceses de origem islâmica que limpam suas ruas, recolhem seus lixos, servem seus sorvetes, cafés, vinhos e crepes além de, sobretudo, diariamente deixar brilhando os mármores de suas antigas e heróicas conquistas – que hoje são a antinomia da atual França e de seu povo, anestesiado por um profundo sono de alienação e sempre atento aos cantos da sereia do fascismo da Frente Nacional.


Quando caminhei com meus próprios pés na periferia parisiense encontrei a verdadeira França e a verdadeira Paris. Ali estava o “Capão Redondo” dos franceses. Os guetos imundos e insalubres que não despontam nos cartões postais. Ali estavam os imigrantes ou os cidadãos franceses de origem islâmica, privados de tudo, até mesmo de poder usar seus trajes típicos nas péssimas escolas públicas oferecidas aos mesmos.


Tudo estava na perfeita ordem de um sistema opressor até que... “Mais de cem morreram em atentados em Paris!” Que belo e conveniente presente de natal receberam o pequenino François Hollande e todo o Imperialismo europeu e norte-americano! Justamente quando a Rússia tomava a frente para combater aquilo que de maneira vergonhosa eles mesmos tinham criado: o Estado Islâmico. Quando vemos um desfile do Estado Islâmico com centenas de picapes (zero quilômetro) da Toyota, fuzis franceses, lança mísseis alemães e metralhadoras norte-americanas, fica a cargo da estupidez de quem se recusa a enxergar não reconhecer aqueles que são os verdadeiros financiadores do terror.


Todos sabem que o Imperialismo e o extremismo islâmico são duas faces da mesma moeda. As ações imperialistas financiam, provocam e aumentam o extremismo. O extremismo, quando se apresenta sob a forma do terrorismo, legitima e impulsiona ainda mais o Imperialismo. Um não pode existir sem o outro na questão do Oriente Médio. E o país mais extremista de todos, a Arábia Saudita, já tem sua elite como proprietária dos melhores apartamentos – bem à frente do Parque Monceau – e o status de “nação amiga” do povo francês.


“Às armas, cidadãos!”. Essa é a palavra de ordem dada aos franceses que capitulam diante do fascismo pela segunda vez (a primeira vez, com Hitler). “Temos que defender nosso estilo de vida ocidental!”, gritam as cabeças ruminantes do La Defénse, enquanto contabilizam os bilhões de euros de seus esquemas de exploração do terceiro mundo, que sustentam seu Estado de Bem-Estar Social o que é, precisamente, o leite morno da consciência europeia.


Enquanto ecoam pela Paris os ultrajantes gritos de ódio, a cidade se esquece de dois importantes fatos. Primeiro: a bandeira tricolor não é mais a bandeira da França, pois já não há, há tempos, naquele país, o branco da igualdade, o azul da liberdade e o vermelho da fraternidade. Segundo: o grande inimigo da França é o seu próprio governo e seus milhões de carrascos voluntários que optaram por apoiá-lo e agora darão a vitória para a Frente Nacional. Logo, a França já não tem mais hino, pois os únicos dignos de cantarem a “La Marseillaise” são os excluídos que ali estão.


A bandeira tricolor e “La Marseillaise” já há alguns anos disseram, em triste tom poético: “Adeus Paris...”


O autor é professor de História/USP e diretor do Instituto de Ensino D’Incao

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