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Chuva desentoca escorpiões em Bauru

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Na casa de Oneir Caçador ninguém dorme ou toma banho tranquilamente, ou mesmo abre uma gaveta, coloca um sapato nos pés ou veste uma roupa sem uns bons chacoalhões. Ele diz ter matado ao menos sete escorpiões dentro de sua casa, na Vila Cardia, nos últimos meses. Problema, contudo, que não aflige só a família de Oneir em Bauru.

Apenas neste ano, até outubro, a cidade contabilizou 126 acidentes envolvendo pessoas picadas por escorpiões na cidade. E os meses que mais geraram notificações são justamente os que registraram intenso calor e chuvas, entre a primavera e o verão (veja mais no quadro). Época em que há a proliferação dos insetos, que saem à procura de alimento e acasalamento, tornando alguns pontos da zona urbana ainda mais atraentes aos escorpiões.

Mais conhecido como escorpião amarelo, o Tityus Serrulatus é o campeão de chamados e o mais venenoso das espécies existentes no Brasil.

É o mesmo que provocou a morte trágica de um menino de 4 anos, que foi picado em um sítio em Ibirá (175 quilômetros de Bauru), no início deste mês. Abalados com a morte do filho, os pais tomaram veneno. O pai da criança também morreu.   

Responsabilidade
Em Bauru, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) é o órgão responsável pela captura desses animais.

Como o local funciona em horário comercial, de segunda a sexta-feira, a orientação é que, aos finais de semana, o animal seja preso por um balde ou pote pesado, até que o órgão seja acionado.

“Uma equipe vai até o imóvel e faz a captura. Inclusive, nossa missão é descobrir de onde eles vêm. Em alguns casos, aplicamos inseticida, mas o que ajuda mesmo a prevenir é a limpeza da casa, quintais e terrenos em dia”, afirma o diretor da Vigilância Ambiental em Bauru, Daniel Godoy Tarcinelli.


Perigo
Encontrados, frequentemente, em terrenos baldios com acúmulo de lixo e entulhos, tubulações de esgoto, quintais de terra com buracos e em ferro-velho, os escorpiões também adoram ralos de banheiro. O cemitério é seu lugar favorito aqui em Bauru. Isso porque a barata, seu principal alimento, é encontrada aos montes nesses locais.

“Eles escalam paredes e têm capacidade de andar em galhos finos e fios. Podem ser encontrados em lugares pouco prováveis, como no bolso de uma camisa estendida em um varal, por exemplo”, alerta o professor do departamento de zoologia e botânica da Unesp de São José do Rio Preto, Antônio Carlos Lofego, que é especialista no assunto.

Fatores como a quantidade de peçonha inoculada, a vulnerabilidade da vítima e a ausência de prestação de socorro influenciam diretamente no resultado morte, após picada do escorpião amarelo. Para conter os efeitos, o paciente é tratado com um soro escorpiônico. “Quanto menor o corpo da pessoa maior pode ser a quantidade de veneno, dependendo do tamanho do escorpião, por isso as crianças estão mais vulneráveis”, frisa. Diretor da Vigilância Ambiental em Bauru, Daniel aponta, contudo, que o Tityus mais comum encontrado na cidade não chega a 3 centímetros.

“Enfrentamos grande problema nos cemitérios por conta da quantidade de baratas, principalmente, no do Jardim Redentor e o Cristo Rei”, comenta. De acordo com ele, alguns funcionários foram picados várias vezes. “E o controle é muito complicado, porque se o veneno não pegar certinho eles não morrem e acabam fugindo para os imóveis vizinhos. Então, optamos pela captura”, completa Daniel, informando que, semanalmente, esses locais passam por vistorias. Levados ao CCZ, os escorpiões capturados são mortos. Ou enviados ao Instituto Butantã, caso apresentem características diferentes.

O mesmo processo ocorre com os que são capturados em residências. “Recebemos uma média de três chamados por mês. Em época de chuva e calor, que a oferta de insetos aumenta, a procura cresce”, detalha Daniel.

Proliferação
Como a reprodução da espécie Tityus Serrulatus ocorre por partenogênese, ou seja, a fêmea não necessita de um macho para desenvolver um embrião e pode gerar mais de 20 filhotes ao ano, a proliferação é bem mais intensa que de outras espécies. A maturidade reprodutiva ocorre entre 1 e 3 anos. “Sabemos houve um aumento da população desses escorpiões nas cidades, mas ainda não há um estudo para saber o que de fato está ocorrendo.

No entanto, temos que considerar que isso só está acontecendo porque há ambientes favoráveis, locais com lixo, escuros, úmidos e com grande oferta de alimento, como baratas, grilo, gafanhoto, entre outros”, explica Lofego. O diretor da Vigilância Ambiental lembra que essa espécie de escorpião era encontrada antigamente em Minas Gerais, mas com o passar dos anos começou a se alastrar também pelo Interior de  São Paulo.

 

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