Tribuna do Leitor

Famílias

Cinthya Nunes
| Tempo de leitura: 3 min

Algumas vezes já me questionei se escolhi a profissão certa, se de fato, dentre os caminhos possíveis, optei por trilhar aquele que mais se ajusta a meu modo de ser. Nos últimos tempos, contudo, com o passar dos anos, eu concluo que talvez nem me fosse possível escolher algo diferente do que o Direito. Embora eu goste de outras tantas áreas do conhecimento e tenha sonhado, enquanto criança, em me tornar veterinária, creio que dentro de mim muito mais alto fala o sentimento de que a Justiça é um ideal a ser buscado e pelo qual se deve lutar. Se a Justiça Suprema, Divina, é algo que quiçá não nos seja dado compreender, a Justiça humana, mesmo que falha, deve ser um norte, um horizonte a se buscar.


Assim, quanto mais tempo eu vivo, mais percebo o quanto as injustiças se propagam e o quanto isso é nocivo à sociedade como um todo e às pessoas, individualmente consideradas. E dessa forma, tenho me tornado uma pessoa chata, pois me incomoda cada vez mais a percepção de que algumas pessoas simplesmente não se importam como o que sucede aos demais. Sinto-me particularmente incomodada com determinadas posturas, sobretudo aquelas baseadas em crenças particulares e em questões puramente religiosas e ainda mais aturdida ao perceber como muita gente se julga detentora única das verdades desse mundo, justificando posturas discriminatórias, xenofóbicas, homofóbicas, cruéis ou radicais de um modo geral.


Ontem, ao ler uma notícia na internet, por exemplo, fiquei extremamente desgostosa em ver que a sociedade brasileira parece caminhar em direção ao retrocesso. Quando deputados votam no sentido de que família é a apenas a comunidade formada entre um homem e uma mulher ou qualquer um deles e seus filhos, eu lamento profundamente, mas não vou me restringir a isso. Por certo que não tenho poder, simples cidadã que sou, de alterar decisões legislativas, mas exatamente por ser cidadã e por desejar uma sociedade menos rancorosa e mais tolerante é que não vou me calar. Penso que família é muito mais do que a união entre homem e mulher e nem estou falando apenas da questão dos homossexuais. Pela definição que os nobres legisladores pretendem ver estabelecida, uma casa na qual morassem duas irmãs, dois primos, tio e sobrinho, por exemplo, não seria uma família...


Pergunto-me se o Estado tem o direito de dizer quem devemos considerar como nossa família!?! Tantas questões prementes a serem discutidas e de competência e responsabilidade do Estado, que acho o cúmulo a ingerência sobre a vida particular das pessoas. Uma família se forma pelo amor, pelo afeto, pela afeição, sentimentos que transcendem ao que as pessoas pensam umas das outras e do que o Estado acha que as pessoas devem fazer ou sentir.


Sou contra qualquer espécie de discriminação, de intolerância e de segregação. Esses sentimentos, inclusive, foram as causas de praticamente todas as grandes mazelas mundiais que esse mundo já vivenciou, mas parece que somos uma raça burra, incapaz de aprender com as lições do passado. Daí, voltando ao início desse texto, creio que eu não poderia ter seguido outra carreira que não o Direito. Acredito que a Justiça deva começar pelas iguais oportunidades, pela visão de que somos todos seres humanos e que não somos mais ou menos pela cor de nossa pele, pelo que vestimos, por onde moramos ou por quem amamos...


As religiões, sejam elas quais forem, têm importante papel na condução de um mundo melhor, mas quando são usadas como pano de fundo para justificar barbáries, ódio, guerras ou divisões, não detêm meu respeito. E se você, meu caro leitor, detentor de todo meu respeito, acredita em um mundo desigual, desagregador, eu sinto dizer que, então, não o represento...

Comentários

Comentários