Quando o governo do Estado divulgou que iria fazer uma reforma na Educação, separando os alunos por nível de ensino: fundamental I, Fundamental II e Ensino Médio, para colocá-los cada um em sua escola, nosso primeiro impulso foi de aplauso. Na época em que estudamos e, com certeza, também o governador e o secretário, tínhamos o jardim de infância e o grupo escolar (primário) em prédios próprios. O ginásio e o colégio geralmente ficavam em prédio comum. Essa divisão facilitava tanto a adequação do ambiente físico – salas, carteiras, sanitários etc., como a preparação do quadro de docentes e auxiliares. Mas antes que fossemos dar a nossa opinião, surgiram os protestos dos professores e dos alunos. É sobre isso que desejamos falar.
Mudanças nas organizações não são um assunto qualquer e sempre provocam reações. Requerem conhecimento e habilidade para serem bem conduzidas. São objeto de estudos encontrados nos bons livros de Administração. Os tempos vão mudando e criando novas necessidades, que naturalmente pedem mudanças para atendê-las. Por essa razão os administradores são incentivados a se prepararem para implementá-las, de modo a manterem suas organizações sintonizadas com o progresso. A teoria da Administração adaptou, para o planejamento e implementação de tarefas administrativas, um esquema criado pelo poeta e escritor inglês, Rudyard Kipling, para orientar contistas e jornalistas, que ele formulou em forma de poema: “Mantenho seis leais serventes: ( Ensinam-me tudo quanto sei ), os seus nomes são O quê e Onde, e Quando e Como e Por que e Quem.”
Criar e implantar uma mudança, como essa proposta pelo governo estadual, é uma grande tarefa. Requer um bom planejamento e uma implementação bem conduzida. O esquema de Kipling pode ajudar na análise do que aconteceu. - O que fazer? - Reorganizar a rede escolar do Estado, foi a proposta. - Por que é necessária? Aí não ficou claro se era para cortar gastos, por causa da crise, ou para melhoria da educação. O governo disse que era para melhoria, mas a argumentação que mais transparecia era a desocupação de prédios subaproveitados. - Onde fazer? Em todas as cidades ou só onde houvesse subaproveitamento? Optou-se por fazer no geral, uma vez que era uma reorganização do sistema, mas parece ter considerado apenas a situação dos prédios e não a situação dos professores e dos alunos, usando uma regra geral: ninguém será deslocado a mais de 1,5 quilômetros. A realidade, entretanto, não é tão simples assim.
Como fazer? Em cima de um mapa estatístico da população estudantil – sua distribuição e aproveitamento escolar, e da situação de ocupação de cada escola, foi elaborado o projeto e planejada a implantação. - Quem deveria fazer? Naturalmente uma comissão de técnicos e educadores, nomeada pelo secretário. Estando pronto, foi feita a divulgação, preparados os agentes da implantação dos diversos escalões da Secretaria, que se encarregaram de transmitir às comunidades, explicando como ficaria a situação em cada localidade e tomar as providências para efetivação. Explicações exaustivas foram dadas à medida que foram surgindo as dúvidas e feitos os questionamentos. A posição do governo, entretanto, era inflexível.
Quando fazer? A ocasião não poderia ter sido pior. Depois dos professores saírem desgastados e magoados de uma greve interminável e de alunos e familiares estarem descontentes com a irregularidade das aulas, foi ingenuidade pensar que não haveria resistência ou que ela poderia ser quebrada pela imposição. Dizer que o governo está aberto ao diálogo é uma coisa que só dá para ser dita, mas não para ser feita. Também pedir que os descontentes apresentem uma contraproposta é uma grande bobagem. Deu no que deu, para piorar aquilo que já não ia bem e o governo, finalmente, capitulou. Michael Hammer, criador da Reengenharia, depois de reconhecer que ela vinha trazendo mais estragos do que benefícios, penitenciou-se escrevendo “A Agenda”, cuja leitura é recomendável.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas